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Disciplinar crianças à luz da neurociência

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O cérebro integrado nos permite navegar pelo meio do “rio do bem-estar”, longe das margens do caos e da rigidez (Fotografei em Peruíbe, SP).

Os recursos de manejo em situações do dia a dia com crianças e adolescentes em abordagens como a de Thomas Gordon (“Parent Effectiveness Training”) e de outros especialistas me inspiraram a escrever Comunicação entre pais e filhos, a partir de minha experiência com grupos de pais. É muito bom constatar a validação da eficácia desses recursos à luz dos estudos sobre a formação do cérebro na infância em livros como Disciplina sem drama, de Dan Siegel e Tina Bryson. Destaco os seguintes aspectos deste livro:

  • O cérebro está sempre se reprogramando a partir das experiências vividas. As ações de pais e educadores influenciam essa modelagem do cérebro.
  • Se considerarmos a construção do cérebro como uma casa, o “andar de baixo” é constituído pelo tronco cerebral e pelo sistema límbico e o “andar de cima” pelo córtex cerebral, que demora muito tempo para se consolidar.
  • Na criança pequena, predomina o “andar de baixo” (ataques de birra, explosões de raiva, recusa em fazer o que é preciso) que ela ainda não consegue controlar sozinha. Por isso, são momentos importantes para disciplinar no sentido de ensinar, e não de punir. Os limites precisam vir de fora até que, pouco a pouco, se fortaleçam os circuitos neuronais do “andar de cima”, que possibilita o autocontrole.
  • Nos episódios de mau comportamento, é essencial conectar-se com o que a criança sente (raiva, tristeza, frustração), reconhecer e validar seus sentimentos, mesmo quando não concordamos com o que ela fez. Só assim, ela poderá passar da reatividade para a receptividade e prestar atenção ao que dizemos. Em primeiro lugar, conectar-se com a criança para, depois, redirecionar seu comportamento.
  • Refletir os sentimentos faz com que a criança se sinta amada e compreendida. Então, poderá aceitar a ideia de uma “segunda oportunidade” para pensar o que poderia ter feito ao invés do que fez e, se possível, reparar o dano.
  • Para isso, é importante estimular o desenvolvimento da empatia para que ela perceba o impacto de suas ações sobre os outros. Todas essas ações constroem o “andar de cima” do cérebro: visão da própria mente e da dos outros, empatia, reparação.
  • Ao fortalecer as conexões entre o “andar de cima” e o “andar de baixo” ocorrerá a integração das diferentes regiões responsáveis por diversas funções no cérebro: “neurônios que disparam juntos se ligam juntos”. O cérebro integrado nos permite navegar pelo meio do “rio do bem-estar”, longe das margens do caos e da rigidez.
  • Ao disciplinar com firmeza, serenidade e muito amor, conectando-se com os sentimentos subjacentes ao comportamento para depois redirecionar, não é preciso utilizar com frequência o “cantinho do pensamento”, castigos e consequências.
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Transformando sentimentos

Os Dois Irmãos, que fotografei em Fernando de Noronha (PE)

Os Dois Irmãos, que fotografei em Fernando de Noronha (PE)

-Minha filha, com cinco anos, se ressente quando me vê envolvida com o bebê, de três meses. Está irritadiça, reclama de tudo, solicita minha atenção o tempo todo!

Em conversas com grupos de pais e na consultoria sobre recursos de comunicação, essa é uma questão que sempre surge. Nossos sentimentos se transformam e se encadeiam uns nos outros. O ciúme surge do medo da perda, da ameaça de ser destronado, rejeitado. A tristeza pode ser encontrada no fundo de muitos ataques de raiva.

Os sentimentos encadeados resultam em mudanças de comportamento e do clima do relacionamento. Mas, quando conseguimos explorar o terreno emocional, podemos ter conversas claras sobre os sentimentos, propiciando sua transformação e a construção de acordos de convívio que possam ser pelo menos razoavelmente satisfatórios.

– Você fica chateada quando me vê cuidando do bebê?

– Será que você está achando que eu não gosto mais de você?

Conversas afetuosas, que permitem a expressão clara dos sentimentos, condutas que mostram a permanência do amor, ações para estimular a interação entre a criança e o bebê são caminhos para transformar o ciúme em segurança, o que permitirá viver a alegria de ter um irmão e a rica aprendizagem desse convívio.

O ciúme pode nos atacar em qualquer idade, assim como a insegurança, a disputa pelo poder, o medo de ceder e ficar submisso ao outro. E, nesse emaranhado de sentimentos, nem sempre conseguimos perceber claramente o que acontece dentro de nós. E nem sempre conseguimos expressar o que sentimos. “Quando a boca cala, o corpo fala” é o ditado popular que sinaliza sentimentos represados, na raiz de muitos sintomas e doenças.

Conseguir ter boas conversas conosco mesmos permite entender melhor os acontecimentos que resultaram em mágoas, ciúmes, raiva, ressentimento e transformar tudo isso em compreensão, compaixão, assertividade. Com isso, conseguiremos caminhar com mais leveza pela vida.