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Você sabe o que é agilidade emocional?

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É preciso desenvolver flexibilidade de pensamentos e sentimentos para reagir da melhor forma possível ao que a vida nos apresenta. Para isso, apesar das tensões, pressões e exigências da vida complexa e de mudanças rápidas que caracterizam o século XXI, precisamos aprender a relaxar e a encontrar o propósito de estarmos nesse mundo, nesse momento.

Com isso, fortalecemos a resiliência para enfrentar desafios e dificuldades, entendendo que tudo isso faz parte do “pacote” de existir. E decidir seguir em frente mesmo quando sofremos decepções e desilusões significativas.

Mas, antes de “seguir em frente”, é preciso ”olhar de frente” sem negar ou minimizar as dificuldades e o que sentimos diante das situações. Fragilidade, raiva, insegurança, medo do fracasso e da rejeição coexistem com nossa força, coragem e esperança. Aprender a “surfar nas ondas” dos sentimentos, em vez de combatê-los ou criticá-los é um modo eficaz de desenvolver autoconhecimento e autocompaixão. Nosso lado sombrio faz parte do “pacote” de nossa humanidade. Olhar tudo isso de frente, com curiosidade, em vez de negar ou combater, liberta e transforma. Não há mudança possível sem reconhecimento e aceitação do nosso “eu inteiro”.

Os sentimentos são o que são e se transformam uns nos outros no fluxo da vida. Não podemos “escolher” sentir isso ou aquilo, mas podemos decidir o que faremos a partir do que sentimos. E também aprofundar o autoexame para entender as “camadas” dos sentimentos. Por exemplo, sob muitos ataques de raiva, encontramos tristeza e frustração. Sob manifestações de ciúme e possessividade, encontramos medo de perda, insegurança. Crie o hábito de perguntar a si mesmo: “O que esse sentimento está querendo me dizer?”

Por isso, para que nossos filhos e netos desenvolvam agilidade emocional desde cedo, é importante reconhecer, nomear, aceitar e entender o que está sendo sentido para que percebam que não é necessário reprimir sentimentos, embora, muitas vezes, seja preciso refrear algumas ações (“estou sentindo raiva, mas não vou bater na minha irmãzinha”). E aprender a lidar com frustrações, estresse, desconforto – as “dores do crescimento”.

Podemos ainda escolher como olhar para a situação difícil: se a vemos como um problema insolúvel, intensificamos o medo e nos paralisamos; se a vemos como uma oportunidade, ficaremos mais flexíveis para buscar recursos, encarar o desafio e aceitar que os erros fazem parte da aprendizagem de viver. Agilidade emocional é aprender a surfar nas ondas da vida, ajustar as lentes para buscar o melhor ângulo do olhar e se considerar como uma “obra em progresso”, como agente da própria transformação e do próprio crescimento.

No decorrer da vida, fazemos planos, estabelecemos metas, determinamos onde queremos chegar. Alguns desses planos se concretizam, outros não. Novas metas, novos planos, lucidez para decidir o quanto ainda vale a pena insistir (em um campo de trabalho, ou em um relacionamento amoroso) e quando é para decretar “fim de ciclo” e sair. A agilidade emocional nos permite pesar melhor os prós e os contras para tomar a melhor decisão e seguir novos rumos que legitimamente desejamos. Com coragem e determinação.

Nas palavras de Susan David, cujo livro “Agilidade emocional” (ed. Cultrix, 2016) inspirou esse texto:

“Coragem não é ausência de medo. Coragem é caminhar no medo”.

“ A beleza da vida é inseparável da sua fragilidade. Somos jovens até que deixamos de ser. Somos saudáveis até que deixamos de ser. Estamos com aqueles que amamos até deixarmos de estar.”

“Pai de rodinhas” ativo e amoroso

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Conheci Sérgio Nardini, o “Pai de rodinhas”, em um encontro de escritores e gostei de ouvir seu relato amoroso sobre sua transformação desencadeada pela paternidade, descrita em detalhes em seu livro. Ele tem uma patologia neuromuscular progressiva, o que o torna dependente de cuidados, inclusive para se alimentar. Mas isso não o impediu de estudar, trabalhar como artista plástico, nutrir boas amizades, casar-se e ter uma filha.

“Ser pai tem sido mergulhar de cabeça num admirável e apaixonante mundo desconhecido”. “Na verdade, eu quero e tento exercer a paternidade exatamente como eu acho que ela deve ser exercida: com responsabilidade e participação ativa”.

A força de vida que o impulsiona, juntamente com o bom humor, faz de Sérgio uma pessoa carismática, que inspira muita gente.  Extraí de seu livro algumas frases que convidam à reflexão:

  • A dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional – serenidade nos dias de tormenta e alegria nos dias de sol.
  • Se não for possível ser feliz, esteja feliz!
  • Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças.
  • A maior alquimia da vida é transformar simples momentos em grandes experiências.
  • Só há uma circunstância na vida em que você só segue adiante dando um passo para trás. É quando você está à beira de um abismo.

A questão é: Como é possível florescer como pessoa, mesmo em situações adversas?

Há tempos, li uma frase interessante: Diante das crises, você vai chorar ou vender lenços? O que fazemos com o que vida nos apresenta? Transformar dificuldades em oportunidades depende, fundamentalmente, da nossa atitude mental. Em síntese: não esmorecer diante das dificuldades.

Há uma grande diferença entre a postura de queixa/reclamação (“A vida foi injusta comigo”; “ninguém me dá oportunidades”) e a disposição de estar alerta para descobrir oportunidades, fazer novos projetos e criar recursos para realizá-los (“está difícil, mas não é impossível”).

“Depois que perdi tudo, o que me deixou no fundo do poço por um tempo, vi que preciso de pouco para viver bem” – ouvi de um ex-publicitário que atualmente trabalha como artista plástico em uma cidade do interior. Essa foi uma das dezenas de histórias de “crescimento pessoal pós-traumático”, que coletei no decorrer de dois anos, ao entrevistar 190 pessoas em mais de 20 cidades brasileiras para escrever meu livro “Construindo a felicidade”. O que há de comum nessas histórias? A capacidade de superação, o fortalecimento da resiliência para enfrentar as adversidades com disposição para buscar novos caminhos, utilizar habilidades para gerar trabalho quando se perde o emprego. Em síntese: fazer do limão uma saborosa limonada.

E mais: a atitude de fazer o melhor possível nas circunstâncias adversas melhora não apenas a vida da própria pessoa, mas de todos os que fazem parte do seu círculo de relações. Voltando ao “Pai de rodinhas”: sua filha, aos oito anos, cria mil jeitos de brincar com ele, de partilhar com alegria as atividades possíveis, e mostra a outras crianças como é se relacionar com um pai sem mobilidade física mas com plena capacidade de dar e receber amor.

Recomendo a leitura do livro! Pai de Rodinhas, de Sérgio Nardini, ed. Mogiana, 2019.

Como lidar com o medo?

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Legenda: Quando ficamos acorrentados ao medo, nosso espaço vital encolhe (Fotografei no Jardim das Esculturas, de Rogério Bertoldo, em Júlio de Castilhos, RS)

O medo faz parte do nosso equipamento inato. Ao perceber o perigo (real ou imaginário), nosso cérebro aciona a reação para lutar, fugir ou paralisar. Sentir medo é essencial para a sobrevivência e a autoproteção. Mas também pode nos acorrentar, impedindo a exploração mais ampla dos territórios da vida, inibindo a ousadia, a experimentação e a inovação.

Em conversa com amigos sobre o tema, começamos pelo medo na própria gestação. Alguém mencionou o conceito de “barriga medrosa” – o medo de passar por outra perda gestacional. Uma participante contou que nasceu após a perda de uma irmã, e recebeu o nome da que morreu. Eu mesma fui a “sobrevivente” entre duas gestações de minha mãe. Outra, gestada durante a Segunda Guerra Mundial, ouvia sua mãe falando sobre o medo do mundo e do que viria depois.

Há medos nutridos pelo contexto em que vivemos. Quando há muita violência nas ruas, há quem deixe de sair à noite. Mas, ao viajar para países com maior segurança pública, esse medo não se manifesta. Adultos que, quando adolescentes, saíam sem medo, preocupam-se quando seus filhos adolescentes não chegam no horário combinado. E muitos filhos, adolescentes e adultos, alertam os pais sobre o perigo das ruas.

O medo se expressa de várias maneiras no decorrer da vida. Em crianças: medo do escuro, de que os pais morram e ela fique sem ter quem lhe ampare, de ser rejeitada pelos colegas. Em adolescentes: tudo é intenso e dramático, colorindo o medo da perda do primeiro amor, da não aceitação dos outros por não ter o corpo de acordo com os padrões de beleza, de não ser popular nas mídias sociais. Nos jovens, medo de não escolher a profissão “certa”, de não conseguir se colocar no mercado de trabalho nesse mundo imprevisível e sem garantias. Em adultos: medo de ter filhos nesse “mundo louco”, de se envolver em uma relação amorosa e sofrer, de sair de um relacionamento abusivo e não encontrar alguém “melhor”. Na velhice, medo do desamparo, de “dar trabalho para os outros”, de não ter uma fonte de sustento financeiro. O medo do sofrimento prolongado, para muitos, é maior do que o da própria morte. Nesse tema, vale a pena assistir a palestra de Ana Cláudia Arantes, médica especialista em cuidados paliativos, que indica caminhos para lidar com esse medo.

Por fim, muitos também citaram o medo do que virá com o próximo governo, em um cenário tão polarizado nas eleições.

É preciso equilibrar a coragem e a cautela para lidar com os medos que nos assombram. E se esforçar para distinguir entre os perigos reais e os que são nutridos por pensamentos catastróficos. Vale expandir o diálogo interno: “O que de pior pode realmente acontecer”? “Vou desafiar esse medo, talvez o que imagino não aconteça”; “Já passei por experiências dolorosas e sobrevivi”.

Expandir a capacidade amorosa, a fé e a resiliência são recursos poderosos para reduzir o medo e fortalecer a coragem. No curso oferecido pela Universidade de Yale sobre a ciência do bem-estar, um dos temas é a capacidade de descobrir forças internas que são acionadas quando nos colocamos diante de desafios. Somos mais resilientes do que imaginamos!

Ana Cláudia Arantes – Como envelhecer:

https://www.youtube.com/watch?v=zcj5DVTciIw&feature=youtu.be

Yale University: The Science of Well-Being.

https://www.coursera.org/learn/the-science-of-well-being/

 

 

O impacto das tragédias em nossas vidas

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Tragédias pessoais e coletivas refletem o ciclo de destruição-reconstrução.

Quase todos lembram onde estavam quando sofremos coletivamente o impacto do 11 de setembro, que inaugurou a era do medo dos ataques terroristas. Conversando com um grupo de amigos sobre o tema das tragédias, falamos também da campanha Setembro amarelo, do CVV, que alerta para a importância da prevenção ao suicídio. A atenção à mudança de comportamento da pessoa que progressivamente perde a esperança e acentua o desespero de não ver outra saída a não ser terminar com a própria vida pode motivar acolhimento e ações eficazes para prevenir essa tragédia.

Alguns participantes, eu inclusive, falaram do impacto do suicídio na família. Meu avô materno, em dificuldades financeiras, se suicidou quando minha mãe tinha apenas onze anos. Ela frequentemente falava sobre esse trauma nunca superado. Outros relembraram casos do noticiário em que uma pessoa matou toda a família e, em seguida, se suicidou. Não viu outra saída para solucionar seus problemas.

Por outro lado, falamos sobre muitas histórias de reconstrução e novo sentido da vida a partir de uma tragédia. Assisti, há algum tempo, a apresentação do Instituto Dimicuida para alertar crianças, adolescentes e famílias sobre as “brincadeiras perigosas” na internet. Esse trabalho foi iniciado pelo pai de um adolescente, que morreu asfixiado ao praticar o “jogo do desmaio”, com a missão de preservar a vida de outros jovens.

A reconstrução, junto com a solidariedade, surge também como resposta a tragédias que impactam um grande número de pessoas, como enchentes, furacões e outras catástrofes naturais ou provocadas pela ação humana. Alguns relembraram as ações de reconstrução no Japão, após a tragédia de Hiroshima e Nagasaki e, mais recentemente, da que aconteceu com o reator nuclear em Fukushima. Conversamos também sobre a tragédia do atual e crescente fluxo migratório de milhões de pessoas, que necessitam de acolhimento e compaixão dos países mais favorecidos.

A natureza também se reconstrói misteriosamente após grandes tragédias. Trinta anos após o acidente nuclear de Chernobyl, em que toda a população da cidade teve que ser evacuada devido à intensa radiação, a vida selvagem floresce, com plantas e o retorno de grandes animais e muitos pássaros. Fênix ressurge das cinzas!

As ações de prevenção são muito importantes, assim como a possibilidade de alertar populações para tragédias naturais iminentes. Proteger casas e estocar mantimentos quando um furacão se aproxima, construir prédios que oscilam levemente para não serem destruídos por terremotos são algumas ações que minimizam danos e motivam solidariedade para prestar socorro quando necessário.

Há tragédias que passam de uma geração a outra, perpetuando um ciclo de pobreza e carência de oportunidades, que deveriam inspirar políticas públicas mais eficazes. É o que acontece quando vemos a situação de muitas comunidades em que há alto índice de gravidez precoce e não planejada (por vezes em várias gerações das mesmas famílias), abandono, violência intrafamiliar, aliciamento de crianças e jovens para o tráfico de drogas e para a prostituição.

Diante das tragédias, além da solidariedade e da compaixão que precisam ser oferecidas, é preciso contar com a força da resiliência – pessoal, familiar, comunitária – que propicia a criação de recursos para enfrentar enormes adversidades.

Treine sua mente, mude seu cérebro!

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Esse objeto me fez pensar como é importante cuidar bem da delicada rede neuronal do nosso cérebro.

“O cérebro está sempre em mutação, a maior parte do tempo sem nossa participação consciente”. “O bem-estar é uma habilidade que pode ser cultivada” – Essas frases me chamaram a atenção quando assisti palestras de Richard Davidson, psicólogo e neurocientista, que comanda um laboratório de pesquisas na Universidade de Wisconsin.

A construção do bem-estar se fundamenta em alguns pilares:

  • Neuroplasticidade – Podemos modelar nosso cérebro para cultivar o bem-estar, podemos meditar para, voluntariamente desenvolver a compaixão. Nossos pensamentos, experiências e relacionamentos fazem e refazem os circuitos neuronais.
  • Epigenética – Como os genes se expressam, ligam ou desligam sob a influência das experiências de vida e dos relacionamentos. Cada gene tem uma espécie de controle de volume que pode ser mudado e regulado por nossas experiências. Temos predisposições genéticas, mas a meditação, por exemplo, pode modular a expressão dos genes.
  • Há uma via de mão dupla entre cérebro e corpo – mudanças em um causam impacto no outro. É possível cultivar o bem-estar praticando atividades físicas e focalizando as emoções positivas.
  • Expandir a generosidade, fortalecer a resiliência (a rapidez com que nos recuperamos das adversidades, cultivando emoções positivas), aprimorar o foco da atenção para estar integralmente no momento presente são outros elementos fundamentais para a construção do bem-estar.

No laboratório, cuja equipe é liderada por Davidson, o estudo da atividade cerebral de monges tibetanos com mais de dez mil horas de prática de meditação revelou circuitos cerebrais ativados pela compaixão, especialmente a ínsula e a amígdala. Descobriu-se também uma forte conexão entre o cérebro e o coração, quando a compaixão é desenvolvida. E tudo isso está ligado à construção do bem-estar.

Em outro experimento, sujeitos não praticantes tiveram duas semanas de treinamento em meditação, durante meia hora por dia, e viram que, mesmo com tão pouco tempo de prática, ocorriam mudanças no cérebro. Esses e outros estudos mostram a importância de trabalhar nossa mente positivamente para promover a saúde física e mental.

“Trabalhar é a maior felicidade”!

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A conversa com a artesã Edite, que fotografei na Chapada Diamantina (BA) foi uma lição de vida.

Foi assim que Edite, 74 anos, respondeu à primeira pergunta da pesquisa que estou fazendo sobre a construção da felicidade. Ela é artesã e mora em Lençóis, na Chapada Diamantina (BA). Trança palha, faz crochê, costura, faz bordado, fuxico, cerâmica. Trabalha na roça, também. “Só paro de trabalhar quando estou dormindo, comendo e no banheiro, cantando. Gosto de trabalhar desde que tinha uns três anos. A gente morava em fazenda, e eu ia com meu pai para o curral ajudar a tirar leite das vacas e também para a roça, para ajudar a plantar e a colher. Ele dizia para minha mãe deixar eu ajudar porque eu gostava de fazer isso. Com minha mãe, eu ia para a lagoa lavar roupa. Eles não trabalhavam sábado e domingo, então eu brincava com bonecas, arrumava a casa delas, convidava outras crianças para brincar comigo. E foi aí que aprendi a cozinhar, costurar, bordar”.

Aprendeu com o pai que o melhor é dormir e acordar cedo, além de descansar depois do almoço para “respeitar o corpo”. Diz que trabalho é remédio: quando sente qualquer mal-estar começa a trabalhar e tudo passa. “Tive 17 filhos mas só criei nove, os outros morreram pequenos. Naquela época, o que a gente mais via era caixão de anjo, muitos morriam novinhos, não tinha remédios nem médicos, como tem agora. Meus nove filhos dizem que se sentem felizes porque nunca me viram em uma cama de hospital”.

Diz que já explicou a mais de mil pessoas que lhe perguntam o que ela faz para viver sorrindo que o importante é trabalhar, que é isso que faz bem para a saúde. “Quem se concentra no trabalho não pensa nos problemas. Quem se preocupa muito adoece e isso não adianta nada, porque o que tem que ser já nasce assim e o que não tem que ser não é”. Às vezes fica preocupada com os três filhos que trabalham como caminhoneiros, mas pensa que Deus não vai deixar que nada de ruim aconteça e, então, a preocupação acaba. Não fica triste porque tem muito a agradecer à vida.

Faz projetos de vida a longo prazo: comprou uma terra e está organizando um sítio, plantando frutas e legumes para se alimentar bem. “Não é porque eu estou com 74 anos que vou deixar de fazer planos para o futuro”.

Edite é uma pessoa resiliente. Intuitivamente, pratica o que a neurociência ensina a respeito da neuroplasticidade autodirigida e a ciência da felicidade aponta sobre a importância da gratidão e da renovação de projetos de vida.

Resiliência para enfrentar os riscos globais

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Fotografei essa geleira na Patagônia Argentina há pouco mais de uma década. Como estará agora?

É imperativo construir resiliência em indivíduos, comunidades, organizações e países para enfrentar os riscos globais. E isso só é possível por meio da colaboração entre os mais diversos atores (governantes, cientistas, empresários, profissionais de várias áreas e sociedade civil) para que as ações pertinentes possam ser feitas. Essa é a mensagem central do Relatório sobre Riscos Globais 2016 do Fórum Econômico Mundial, que li com muito interesse.

Os principais riscos apontados referem-se às mudanças climáticas e seu impacto na segurança alimentar, na produção agrícola e no acesso à água, não só nos países menos desenvolvidos como também nos que exportam alimentos.

Outros desafios apontados: o fluxo crescente de refugiados, os índices persistentes de desemprego, a rápida propagação de doenças infecciosas por diversos países, a quebra da confiança nos governantes em função da falta de transparência que favorece a corrupção, os ataques terroristas e os ataques cibernéticos. Tudo isso provoca desestabilização social e, sem sociedades estáveis, é difícil construir resiliência.

Por outro lado, os rápidos avanços da tecnologia e da informática continuam transformando a maneira de viver, de se relacionar e fazer negócios: é a Quarta Revolução Industrial, que apresenta riscos e oportunidades. Dentro em breve, robôs serão capazes de realizar um número crescente de tarefas ainda desempenhadas por trabalhadores humanos e a Internet das Coisas também resultará em uma profunda reestruturação do sistema de trabalho. Também o sistema educacional precisará de amplas revisões, privilegiando cada vez mais a capacidade de aprender a aprender, de trabalhar em equipes de colaboração e de desenvolver a inteligência de relacionamentos.

O acesso à tecnologia ampliou a manifestação da insatisfação não somente por meio de protestos online mas também como instrumento para reunir um grande número de pessoas em ações presenciais. Quando os governantes se dispõem a ouvir atentamente as mensagens da população, conseguem abrir espaço de participação para efetuar as ações necessárias, adotando posturas de transparência e de combate eficaz à corrupção, entre outras práticas.

A grande questão é ver como a comunidade global, a partir da percepção dos riscos, aproveitará a oportunidade de criar ambientes de colaboração para gerar recursos para prevenir ou mitigar os efeitos adversos de eventos catastróficos em um mundo complexo e em rápida mutação. Todos nós precisamos nos envolver nesse trabalho de construção coletiva!

O Relatório pode ser acessado em: http://www3.weforum.org/docs/GRR/WEF_GRR16.pdf

O estresse do cotidiano

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Riscos e imprevisibilidade aumentam o nível de estresse (Cratera de vulcão que fotografei na Costa Rica).

Com uma avalanche de informações e sobrecarga de tarefas e compromissos, é possível escolher fazer uma coisa de cada vez, sem nos obrigarmos a ser multitarefa o tempo todo? Quais os recursos que podemos utilizar para reduzir o estresse inevitável? Como criamos estresse desnecessariamente?

A conversa sobre esse tema com um grupo de amigos foi muito interessante. Compartilhamos recursos que utilizamos para descarregar o estresse do cotidiano, com os problemas de trânsito, a vida em cidades com muitos episódios de violência e horário apertado devido à sobrecarga de compromissos. Nadar do mar de manhã cedo, dançar, jantar com a família sem ligar a TV ou verificar mensagens no celular, conversar com os amigos, meditar, cultivar a alegria e o bom-humor foram alguns dos recursos mencionados. Uma das participantes disse que pratica o que leu em um livro: quando está estressada, imagina-se morta, no caixão, e dessa perspectiva, olha a vida. Isso a ajuda a perceber o que realmente importa e como está criando estresse ao cultivar mágoas ou preocupações.

Vivemos em cenários de alta complexidade, precisando encarar não somente as crises pessoais como também as políticas, econômicas, ecológicas e tantas outras. Precisamos fortalecer a resiliência pessoal, familiar e comunitária para encarar as adversidades e encontrar meios de reduzir os danos causados. Conviver com múltiplas dificuldades sem desenvolver resiliência e flexibilidade nos torna vulneráveis ao estresse tóxico, com os problemas de saúde daí derivados, desde a época da gestação.

As pesquisas sobre a biologia do estresse mostram como o estresse crônico na gravidez (por exemplo, proveniente de condições de vida extremamente desfavoráveis, tais como a miséria, abuso e negligência) pode prejudicar a formação do cérebro fetal e colocar o sistema de resposta ao estresse continuamente em alerta máximo, passando a mensagem bioquímica “o mundo lá fora está cheio de perigos”.

Há situações estressantes que são inevitáveis, fazem parte do “pacote da vida”. E também é preciso reconhecer que o estresse tem aspectos positivos, como enfatiza Kelly Mcgonigal em sua palestra TED “How to make stress your friend”. Precisando enfrentar mudanças e adversidades, saímos da zona de conforto, ficamos motivamos a buscar pessoas de quem gostamos e em quem confiamos para trocar ideias e obter apoio. Isso fortalece os vínculos e a resiliência para enfrentar os múltiplos desafios que encontramos pelas trilhas da vida.

http://www.ted.com/talks/kelly_mcgonigal_how_to_make_stress_your_friend/transcript?language=en

Criar filhos em um mundo de incertezas

As novas gerações precisarão pensar soluções inovadoras para cuidar melhor da teia da vida. (Fotografei na Nova Zelândia).

As novas gerações precisarão criar soluções inovadoras para cuidar melhor da teia da vida. (Fotografei na Nova Zelândia).

No século XXI, sob muitos aspectos, vivemos em um mundo inseguro e imprevisível: enfrentamos desastres naturais, ataques terroristas, instabilidade econômica, imprevisibilidade. Precisamos criar estratégias para lidar com tudo isso, desenvolver a habilidade de pensar em soluções para os problemas, em vez de fugir deles. Cuidar dos vínculos na intimidade das famílias e no ambiente escolar constrói bons alicerces para a resiliência – a capacidade de enfrentar as adversidades sem se deixar abater e de encontrar saídas criativas para solucionar problemas.

Um documentário sobre a qualidade da educação na Finlândia, considerada uma das melhores do mundo, mostra que, lá, a escola pública de alta qualidade é oferecida a todas as crianças e adolescentes. O professor atua como um orientador, motivando os alunos a pesquisar e organizar as informações, estimulando as ideias inovadoras, o espírito empreedendor e a inteligência social. Precisamos que as novas gerações criem soluções para os múltiplos problemas que enfrentamos coletivamente, como a ameaça de esgotamento dos recursos naturais, o excesso de poluição e o crescente fluxo migratório, entre outros.

Um documento da UNESCO ressalta o valor da educação, mesmo em condições precárias como as encontradas nos acampamentos de refugiados, para abrir perspectivas de construir um futuro melhor e aliviar o estresse emocional de viver em contextos de grandes perdas e extrema instabilidade.

As novas gerações precisarão redefinir  o modelo de progresso econômico rumo a um desenvolvimento sustentável e integral, como tão bem mostrou o Papa Francisco na encíclica Laudato Si. Criar filhos em um mundo de incertezas significa também consolidar a educação em valores, em especial o respeito pela teia da vida e pela família humana que compartilha a mesma casa planetária, fortalecendo a compaixão e o espírito de partilha.

Uma pesquisa feita em 40 países desenvolvidos pelo Pew Reserch Center revela que, embora os pais desejem um futuro feliz e seguro para seus filhos, a maioria das pessoas entrevistadas acha que as futuras gerações enfrentarão  maiores dificuldades financeiras do que as atuais, considerando o contexto econômico recessivo pelo qual passamos. Isso demandará uma profunda revisão de hábitos de consumo, para que seja possível aprender a viver melhor com menos, como preconizam os adeptos da simplicidade voluntária.

https://www.youtube.com/watch?v=WeMM-hL0KFY&spfreload=1

http://www.unicef.org/teachers/protection/instability.htm

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html

https://agenda.weforum.org/2015/08/how-optimistic-are-parents-about-their-childrens-financial-future/?utm_content=buffer0289d&utm_medium=social&utm_source=twitter.com&utm_campaign=buffer

A oportunidade das crises

Observação atenta e serena do cenário para agir com precisão é uma postura eficaz para lidar com as crises. (Fotografei  em Fernando de Noronha, PE).

Observação atenta e serena do cenário para agir com precisão é uma postura eficaz para lidar com as crises. (Fotografei em Fernando de Noronha, PE).

Atravessar crises, individuais ou coletivas, envolve riscos e oportunidades. A crise rompe o equilíbrio vigente e nos coloca em busca de um novo equilíbrio. Portanto, a mudança é inevitável – para melhor ou para pior. Envolve perdas e ganhos, gerando a necessidade de criar novos recursos para enfrentar a situação.

Na travessia das crises, a pergunta-bússola é: O que posso fazer de melhor para abrir bons caminhos? “Reclam/ação” – em vez de nos afundarmos em desânimo e pessimismo, investimos energia em ações eficazes, observando o cenário com atenção e o máximo de serenidade possível.

É preciso refazer o orçamento, cortar custos e repensar o que é indispensável e o que é supérfluo? Podemos viver bem com menos recursos sendo mais criativos para criar estratégias de sobrevivência em cenários desfavoráveis.

Além das crises inevitáveis que a vida nos apresenta, há aquelas que criamos para nós mesmos quando cultivamos mágoas crônicas, atribuindo a outras pessoas a causa de nossa infelicidade ou criando a ilusão de que é possível ser bem-sucedido no amor ou no trabalho sem passar por episódios de fracasso e frustração. Persistência para vencer obstáculos e resiliência para enfrentar as dificuldades sem sair de cena são ferramentas indispensáveis para viver no mundo instável e imprevisível em que estamos.

Em vez da rigidez de condutas que há muitos deixaram de ser eficazes (se é que algum dia foram…), precisamos cultivar a flexibilidade para melhor nos ajustarmos a contextos de rápidas mudanças, que caracterizam o século XXI. Se o plano que consideramos ideal for inviável, precisamos formular outro mais adequado às circunstâncias presentes, em vez de sentar e chorar desconsoladamente ou ficar com raiva da vida que não nos oferece o que queremos.

Quando pensamos no caminho percorrido, podemos perceber a sucessão de obstáculos que já foram vencidos. Aprender a andar, a comer com as próprias mãos, a ler e escrever. Enfrentar experiências de rejeição e exclusão, de insegurança quanto à nossa competência, de arrependimento por escolhas que não trouxeram bons resultados. Tudo isso pode ampliar nossos recursos e reforçar a crença de que seremos capazes de continuar enfrentando novos desafios, refazendo metas, construindo sonhos e nos esforçando para concretizá-los.

Nas trilhas da vida vamos caminhando

Com sonhos e metas para alcançar

Encarando as dificuldades

Como desafios para enfrentar