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Maternidades

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Alegria, felicidade, preocupação, raiva, tristeza: tudo faz parte desse amor profundo e transformador que pavimenta as trilhas das maternidades (Fotografei em Ilha Grande, RJ).

O psicanalista inglês Donald Winnicott escreveu sobre o conceito de “mãe suficientemente boa”. Eu costumo dizer que maternidade e paternidade é uma balança de créditos e débitos. Os filhos não precisam de pais perfeitos, e sim de pais humanos e amorosos, em constante processo de aprendizagem, e os erros fazem parte do caminho.

No entanto, há décadas observo milhares de mães prisioneiras do sentimento de culpa e de exigências cruéis impostas a si mesmas. Não se sentem “mães suficientemente boas” por não estarem “sempre” com os filhos porque trabalham e/ou estudam, porque não contam com a contribuição (financeira ou de presença) do pai, porque acham entediante sentar para brincar com os filhos pequenos e por muitos outros motivos. Olham com lente de aumento para suas supostas deficiências e sentem dificuldade de valorizar os aspectos positivos de seus vínculos. Por outro lado, há as que não se dão conta das reais necessidades de seus filhos, que anseiam por um olhar atencioso de seus pais mergulhados em seus celulares mesmo quando tentam fazer uma refeição em conjunto ou quando saem para passear.

De onde vem esse ímã de culpa e de exigência que grudam em tantas mães? As pesquisadoras Kniebiehler e Fouquet mostram que a exaltação da imagem materna liga-se à Virgem Maria, que concebeu sem pecado, ou seja, sem sexo. Desse modo, a noção de pureza, caridade, humildade, renúncia e dedicação vincula-se à imagem de maternidade santificada. No entanto, no século XVI, na Europa, predominava o costume de confiar o recém-nascido a uma ama, que ama­mentava e cuidava de crianças durante os primeiros anos de vida. No século XVII, ter um filho fora do casamento acarretava grandes problemas e, com isso, muitas mulheres recorriam ao aborto, ao abandono e ao infanticídio. Pesquisadores como Ariès e Badinter concluíram que o amor materno não é um instinto, mas um sentimento que, como todos os demais, está sujeito a imperfeições, oscilações e modifica­ções.

No final do século XVIII, a exaltação do amor materno entrou no discurso filosófico, médico e político. Assim iniciou-se o processo intimidar e culpar as jovens mães: a recusa de amamentar e a tentativa de abortar passaram a ser consideradas condutas criminosas. No século XX, especialmente sob a influência da psi­canálise, reforçou-se a tendência a responsabilizar a mãe pelas dificuldades e problemas dos filhos.

Mas o que observamos, na prática? As maternidades acontecem de várias formas e evoluem por caminhos diversos. O filho pode ser fruto do amor entre um homem e uma mulher que engravidam com o desejo; pode vir “por acaso” em adolescentes ou em decorrência de um relacionamento passageiro; pode surgir a partir do amor entre duas mulheres que recorrem à inseminação; o vínculo amoroso pode ser tecido por mulheres que adotam crianças e adolescentes ou pelas que assumem o compromisso de amar e de cuidar dos filhos de parceiros/as nas “famílias mosaico”.

Acompanhar o crescimento dos filhos revela possibilidades e dificuldades das maternidades. A emoção de perceber a evolução das crianças, mesmo as que apresentam problemas graves, a alegria de constatar que os filhos são capazes de fazer boas escolhas em seus caminhos de vida, e a apreensão de constatar que nem sempre essas escolhas correspondem aos desejos dos pais. Alegria, felicidade, preocupação, raiva, tristeza: tudo faz parte desse amor profundo e transformador que pavimenta as trilhas das maternidades.

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Ilusão de onipotência

Sem a ilusão de onipotência, descobrimos o verdadeiro poder para desabrochar potencialidades. (Fotografei na Finlândia).

Sem a ilusão de onipotência, descobrimos o verdadeiro poder para desabrochar potencialidades. (Fotografei na Finlândia).

”Fiquei cinco anos com uma pessoa difícil de conviver. Acreditei que, com amor e paciência eu conseguiria modificá-la. Fiz de tudo, me esforcei até não aguentar mais e perder a esperança. Fiquei triste nos primeiros meses após a separação, mas depois senti um grande alívio. Saiu um peso dos meus ombros quando eu percebi que não tenho tanto poder quanto eu imaginava”.

É libertador perder a ilusão de onipotência e perceber nossas limitações e reais possibilidades. Só conseguimos contribuir para a mudança de outra pessoa quando ela aceita nossa colaboração e cria coragem para romper com antigos padrões. Isso acontece até mesmo na psicoterapia. Quem diz que quer mudar mas, na realidade, só quer mais do mesmo não faz progressos significativos, mesmo quando está com um terapeuta experiente e competente.

Fazer mudanças significativas em nós mesmos dá trabalho, requer coragem e muita disposição. Quando superamos o medo de mudar e renunciamos à esperança de que nossa vida vai melhorar quando os outros mudarem, criamos condições propícias para o desenvolvimento pessoal. Em solo fértil, as sementes germinam.

É comum nutrir a ilusão de onipotência nos relacionamentos amorosos. “Eu pensei que, com carinho, eu poderia convencê-lo a parar de beber e voltar a estudar” – escreve uma leitora. O resultado é frustração e, eventualmente, o sentimento (onipotente) de culpa por não ter tentado “de tudo” ou por um tempo ainda maior para salvar o outro de cair no abismo. Nosso poder de mudar os outros não é tão grande quanto gostamos de imaginar! É melhor investir essa energia para mudar o que é preciso em nós mesmos. Isso se refletirá em mudanças no relacionamento.

Por outro lado, há relacionamentos que promovem o crescimento de ambas as partes. A colaboração recíproca presente nesse amor torna o terreno fértil para desabrochar potencialidades surpreendentes. Superada a ilusão de onipotência, descobrimos o verdadeiro poder.

Vamos tomar cuidado com as nossas escolhas

É fácil a gente se iludir

Achando que podemos transformar

Quem não quer se modificar!