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É possível blindar a dor?

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A vida é efêmera: aproveite o melhor de cada dia!

Essa foi uma das perguntas da entrevista que dei para uma revista. Não é possível blindar eficazmente a dor, e nem é necessário, porque é a capacidade de sentir dor e sofrimento que abre a possibilidade de sentir alegria e prazer. Quem tenta se anestesiar para a dor, também fica frio para os demais sentimentos. Não adianta se proteger com uma carapaça para blindar o sofrimento. Muitos tentam fazer isso recorrendo às drogas ou se se aprisionando em compulsões para aliviar a angústia, mesmo que por um breve tempo. Mas é preciso buscar suas raízes.

Não adianta sufocar nenhum sentimento dentro de nós, porque eles sempre encontrarão caminhos para se expressarem, inclusive por doenças em nosso corpo. Na letra de “Revelação”, música composta por Clodô e Clésio, vemos que o “sentimento ilhado, morto e amordaçado, volta a incomodar”, expressão poética do conceito freudiano “retorno do reprimido”.

Dores, perdas e sofrimento fazem parte do caminho da vida de todos nós. Alguns carregam fardos mais pesados do que outros, mas é importante saber que tudo isso são oportunidades de aprender a fortalecer a fé e a espiritualidade, a criar recursos para superar os obstáculos, a buscar o sentido mais profundo da vida. As diferentes experiências abrem novas dimensões em nossa maneira de ser e de entender o mundo.

A morte de uma pessoa querida nos coloca diante do desafio de compreender que cada um tem seu tempo de vida, que às vezes é muito breve, como acontece quando morre um bebê ou uma criança pequena. Essa pessoa vem com uma mensagem de amor para a família. E continuará viva no amor de todos aqueles que conviveram com ela, mesmo quando sua passagem por esse mundo foi muito breve. É preciso entender também que essa vida terrena é apenas uma parte de uma vida maior, que continua após o término da “embalagem” do corpo físico.

Doenças graves ou crônicas: quando acontecem conosco, precisamos entender que, por mais fortes que pensamos ser, também temos fragilidades, somos perecíveis. É uma oportunidade de rever orgulho, vaidade, arrogância para aceitar a ajuda e a dedicação de quem está disposto a oferecer cuidados. Se a enfermidade acontece com um ente querido, é a oportunidade de oferecer presença amorosa e reconfortante, generosidade, aproveitar o tempo de convivência que às vezes falta quando todos estão assoberbados de tarefas e compromissos.

No cenário atual, a perda do emprego atinge milhões de pessoas e suas famílias. O desafio é enfrentar o medo, a insegurança, o desânimo e até o desespero. Isso ajuda a encontrar forças para buscar novas oportunidades, muitas vezes em áreas totalmente diferentes daquelas em que a pessoa trabalhava, superar os sentimentos de vergonha e humilhação para aceitar ofertas que julgava  “inferiores”, ampliar competências, desenvolver novos talentos, fortalecer os laços com a família para pensar soluções em conjunto e reorganizar o orçamento doméstico, perceber a diferença entre o que é realmente essencial e o que passa a ser supérfluo, para conseguir viver melhor com menos recursos materiais.

Há pessoas que entendem com mais facilidade que o sofrimento é parte inevitável da vida. Por outro lado, há os que “fabricam” sofrimento: não conseguem sentir gratidão pelo que a vida lhes oferece, reclamam de tudo e de todos, prestam atenção somente ao que não conseguem obter, cultivam mágoas e não conseguem compreender os benefícios do perdão. Por isso, vemos pessoas que se sentem felizes apesar de enfrentarem inúmeros problemas e pessoas que se sentem péssimas mesmo quando, aos olhos dos outros, vivem com “tudo para serem felizes”.

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“Não há mais o que fazer”…

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No ciclo da vida, viver cada dia em plenitude (Fotografei na Patagônia chilena).

Fiquei emocionada ao assistir “A morte é um dia que vale a pena viver”, palestra TED com a médica Ana Cláudia Quintana Arantes, que se dedica a oferecer cuidados paliativos para as pessoas que estão no fim da vida, a partir do momento em que muitos profissionais dizem que não há mais nada a ser feito.

Ela esclarece que “paliativo” vem de “pallium”, um manto que era colocado nas costas dos cavaleiros das Cruzadas para protegê-los das intempéries. E, nesse sentido, cuidados paliativos significa proteger do sofrimento, tratar do controle dos sintomas aliviando ao máximo o sofrimento físico para cuidar melhor das demais dimensões do sofrimento (emocional, familiar, social, espiritual). Visto dessa forma, há muito a fazer para cuidar de pessoas mesmo quando a doença não tem cura e segue seu curso inevitável.

Eu trabalhei em hospitais com equipes de saúde e coordenei muitos grupos de relacionamento médico-cliente-família. O final da vida breve de alguns bebês internados em UTI Neonatal e os últimos dias de uma vida mais longa de adultos e idosos me fizeram ver que há muito a ser feito na assistência a pessoas que estão morrendo e a suas famílias. Todos nós temos muito a aprender sobre a vida quando a olhamos pela perspectiva da morte.

Já tendo passado dos sessenta, tenho acompanhado o fim da vida de muitas pessoas queridas, da família e do grupo de amigos. Quando a morte não chega repentinamente, como em um acidente fatal, é possível aprofundar a percepção do sentido da vida, rever a própria trajetória, expressar gratidão, refazer vínculos, aproveitar da melhor forma o tempo que resta.

Mas, independentemente da idade que temos, não sabemos quanto tempo temos pela frente. Qual o sentido que estamos encontrando para nossa vida? Como estamos nutrindo nossos vínculos afetivos? Como estamos aproveitando o privilégio de viver?

“Não quero que minha filha sofra”!

Há trilhas em nossa vida que são difíceis e desafiadoras, como essa que fotografei na Suíça.

Há trilhas em nossa vida que são difíceis e desafiadoras, como essa que fotografei na Suíça.

“Eu me separei há um ano e, no fim de semana passado, minha filha foi para a casa do pai, que apresentou a namorada. Ela voltou chateada, e quis dormir na minha cama. Será que eu deveria falar com ele para evitar o contato da menina com essa namorada? Não quero que minha filha sofra”!

Proteger os filhos de todo e qualquer sofrimento é missão impossível. E desnecessária. Tristeza, frustração e decepção fazem parte da vida desde os primeiros anos de vida. Tiramos da mão da criancinha um copo de vidro que ela pegou antes que pudéssemos evitar, e ela chora desconsolada com essa frustração. A melhor amiga escolhe outra criança para ser a “melhor amiga”: essa rejeição provoca grande sofrimento. Ela se apaixonou por um garoto, mas descobre que está interessado por outra: essa decepção provoca uma tristeza profunda.

Estimular crianças e adolescentes a criar recursos para atravessar o sofrimento e se fortalecer com ele é instrumento básico de sobrevivência em um mundo cada vez mais instável, incerto e imprevisível. Escutar com sensibilidade a expressão da tristeza, da desilusão e da frustração transmite acolhimento e segurança. Em seguida, é o momento de vislumbrar outros caminhos para se adaptar às mudanças inevitáveis e aproveitar o que há de melhor em cada circunstância.

A transição para outro tipo de composição familiar envolve sofrimento, mas é possível estruturar dois lares harmônicos. Nesses lares, os filhos se sentem bem cuidados por pai e mãe que deixaram de compor um casal. É claro que há áreas de risco na separação, quando os sentimentos de mágoa e decepção se transformam em ódio e desejo de vingança, intensificando os ataques recíprocos entre os ex-cônjuges. Isso coloca crianças e adolescentes no meio da linha de fogo e gera um sofrimento que poderia ser evitado se os adultos colocassem em primeiro plano a responsabilidade compartilhada de criar os filhos da melhor forma possível.

Há circunstâncias mais dramáticas de sofrimento intenso pelas quais milhões de crianças e adolescentes em todo o mundo estão passando em zonas de guerra, em migrações decorrentes de desastres climáticos, em campos de refugiados, em comunidades nas quais predomina a linguagem da violência e da barbárie. Muitos ficam profundamente traumatizados com esses sofrimentos devastadores. Outros conseguem desenvolver resiliência – a capacidade de criar recursos para enfrentar adversidades – e encontram saídas para situações desesperadoras. E há os que, criando força para a superação, desenvolvem a solidariedade e ajudam outras pessoas em situações semelhantes a criar recursos para enfrentar o sofrimento e construir a melhor vida possível.