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Desalento e esperança

 

 

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Mesmo passando por dificuldades e com problemas para enfrentar, vale apreciar a beleza brotando. (Fotografei em Maringá, RJ).

Ai Weiwei filmou Human Flow mostrando o drama de milhões de refugiados

Diz que “não existe lar se não há para onde ir”.

Mas nesse filme há imagens de um grupo unido em prece, na fé que alimenta a esperança

Que nasce do desespero e leva a uma busca de acolhimento em algum lugar do mundo

Deportações e desamor, mas também solidariedade e compaixão dos que atuam nas agências humanitárias.

Ameaças de guerra nuclear pairando no ar.

Mudanças climáticas – ainda há tempo de reverter o prognóstico ruim?

Novas tecnologias surgindo – para o bem ou para o mal

Redes de ódio proliferando na internet, acentuando intolerância

Rompendo vínculos de família e de amizades com os que pensam diferente

Mas na rede também compartilhamos conhecimentos, boas ideias e boas práticas

Criamos redes de solidariedade que melhoram as condições de vida de muitos

Para que lado vamos dirigir nosso olhar e nossas ações?

Sem negar problemas e dificuldades mas valorizando também

Os grandes pequenos momentos em que há encontro amoroso de olhares

Gestos de delicadeza, abraços fraternos, amor dedicado, cooperação.

A harmonia do voo dos pássaros, a vida renovada nas folhas das árvores, a flor que se abre, a fruta madura

O que nos diz tudo isso, que também faz parte do mundo?

Que tipo de contribuição estamos oferecendo?

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Relacionamentos em tempos de crises

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O que podemos oferecer de melhor para o outro, mesmo em época de crises? (Fotografei em Maringá, MG).

Esse foi o tema do debate em um programa de rádio do qual participei. Há várias vertentes das crises, que podem se entrelaçar:

  • Revisões pessoais (“É isso mesmo que eu quero para minha vida?”);
  • Dúvidas com relação à parceria (“Será possível revitalizar essa relação tão desgastada, ou é melhor partir para outra?”)
  • Reflexos da crise do contexto (“Com a recessão e a instabilidade política, a gente vive estressada e a paciência acaba”). A incerteza do cenário político/econômico, o alto índice de desemprego e o medo de perder o trabalho que ainda tem desestabilizam muitos relacionamentos.

A crise que enfrentamos no presente parece maior do que as que já atravessamos no decorrer da vida. Mas nem sempre é o que acontece. Por isso, vale lembrar de acontecimentos do passado em que superamos desafios significativos e refletir sobre eles:

  • Que recursos foram utilizados? Como recorrer novamente a eles, além de formular novas estratégias para enfrentar a crise atual?
  • Que tipo de ajuda foi mais eficaz no passado? A quem podemos recorrer agora?
  • O que poderemos fazer para fortalecer a cumplicidade, a solidariedade, a ajuda recíproca?

Convém evitar mergulhar em lamentações, culpar, criticar, reclamar, queixar-se. Isso gasta a energia que precisa ser utilizada para atacar o problema, e não as pessoas. Por exemplo, flexibilizar as funções dentro de casa (quem faz o quê, quando um dos membros da família ficou desempregado); reorganizar o orçamento, criar alternativas; usar a criatividade e a capacidade amorosa para manter a chama afetiva acesa, apesar das intempéries.

Casais que passaram por várias crises e permaneceram juntos  fizeram vários casamentos dentro do mesmo casamento, modificando pactos e acordos de convivência na medida em que as mudanças vão se apresentando a cada nova etapa do ciclo vital ou a partir do inesperado. “Sou casada há 40 anos e não posso dizer que conheço meu marido”, disse uma participante de um grupo de mulheres que coordenei. E não conhece mesmo! Da mesma forma que também é impossível conhecer inteiramente a nós mesmos. Novos aspectos do outro e de nós vão se revelando na sequência dos acontecimentos. Nós nos surpreendemos  conosco e com aqueles com os quais convivemos (para o bem ou para o mal).

E em tempos de “amor líquido”, como dizia Bauman? A paixão tem prazo de validade, pode ou não conduzir ao caminho do amor. Na vitrine virtual, muitos escolhem parceiros pelos aplicativos de paquera como se fossem produtos a serem consumidos e rapidamente descartados. Vale refletir:

  • Em que posso contribuir para formar e estabilizar um relacionamento?
  • Fico esperando tudo do outro?
  • Estou muito exigente e pouco tolerante?
  • Insisto no padrão de sair com várias pessoas, eternamente na fase de “triagem”, sem conseguir formar um vínculo mais significativo por alimentar a ilusão de encontrar alguém melhor no contato seguinte?

Vovó, posso ajudar?

É preciso a colaboração de muita gente para uma obra de arte como essa ser apreciada por milhões de pessoas. ( Fotografei no Rubin Museum of Arts, em NY).

É preciso a colaboração de muita gente para uma obra de arte como essa ser apreciada por milhões de pessoas. ( Fotografei no Rubin Museum of Arts, em NY).

Maurício, 4 anos, fez essa pergunta ao ver a avó começar a recolher os pratos da mesa, após o almoço de domingo.

Se a casa é de todos, todos colaboram. Essa participação pode começar quando a criança é pequena, para construir desde cedo a noção do valor da cooperação na “equipe de família”. O desenvolvimento da solidariedade segue pelo mesmo caminho, inclusive na relação entre irmãos.

Assim que saiu da maternidade com o recém-nascido, Ana Lúcia começou a pedir a Pedro, de 3 anos, para ajudá-la a cuidar do irmãozinho, estimulando-o a fazer pequenas tarefas que estavam ao seu alcance. Isso ajuda a “digerir” o ciúme, integrando todos no circuito familiar, para atenuar o sentimento de ser excluído ou preterido.

Criar tempo de convívio em família propondo atividades que envolvem a participação de todos é um convite para desenvolver a colaboração e boas conversas, por exemplo, na cozinha em que todos preparam uma refeição no final da semana.

Conhecer e, se possível, colaborar com algumas tarefas no ambiente de trabalho dos pais pode ser uma boa experiência no fortalecimento da colaboração. Eu tenho boas lembranças de atender pessoas no balcão da padaria que meu pai gerenciava quando eu era criança (nada a ver com exploração de trabalho infantil)! Luiz, pai de meninos de 10 e 12 anos, começou a levá-los uma vez por semana para o restaurante em que trabalha, com o propósito de fazê-los observar a importância de uma equipe que atua em colaboração para que os clientes sejam bem atendidos.

A colaboração é essencial para o bom convívio na família, na escola e no trabalho. E também para a vida em comunidade. No entanto, muitos adultos não percebem a importância da colaboração individual para o bem-estar coletivo. Presenciei uma cena em que uma senhora, elegantemente vestida, jogou lixo na calçada. Uma moça que passava a seu lado, apontou para uma lixeira próxima. Indignada, a senhora contestou:

– Os garis são pagos para limpar as ruas!

Conheço muitos adolescentes e jovens adultos extremamente conscientes de seus direitos e muito tranquilos com sua total falta de colaboração. “Meu pai paga a empregada, então é ela quem tem de recolher a roupa que eu deixo espalhada pela casa e esquentar a comida quando eu chego da faculdade” – afirma Mateus, achando muito natural que todas essas mordomias lhe sejam oferecidas. Na época em que eu trabalhava como voluntária coordenando grupos de mulheres em comunidades, muitas diziam que nem os filhos nem os companheiros participavam das tarefas domésticas. Uma delas desabafou:

– Chego do trabalho exausta, e ainda tenho que fazer comida e cuidar da roupa de todos eles. Minha filha, de vinte anos, não lava nem as próprias calcinhas!