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Desavenças nas festas de fim de ano

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Pontes bem construídas permanecem intactas por muito tempo e resistem às intempéries (Fotografei no Japão).

 

“Não consigo perdoar minha mãe por ter votado naquele candidato! Tentei de tudo para ela mudar de ideia! Argumentei tanto, tentando mostrar por A+B que ela estava errada, mas não adiantou! Resultado: estou sem falar com ela e com outras pessoas da família que também votaram no mesmo cara! E agora vem a festa de Natal”…

Conheço pessoas que se aprisionaram nessa dificuldade de reconhecer e valorizar tudo o que foi construído em muitos anos de convívio com pessoas da família e com amigos, por conta de discordâncias e desavenças. A polarização que presenciamos nas redes sociais nas últimas eleições despertou camadas profundas de ódio, decepção e revolta. “É melhor eu me fechar entre os meus”: deletar quem pensa diferente não só das redes sociais como do convívio presencial.

Com os ânimos acirrados, muitos extrapolam em xingamentos pesados e comentários grosseiros que atacam pessoas e não apenas ideias e opiniões. Com isso, dinamitam pontes, fecham caminhos com barricadas e abrem-se abismos de intolerância e intransigência. Fixados nas respectivas posições, não há mais escuta possível. É declaração de guerra. Nesse destempero, surge o pior de nós mesmos. Mas ninguém é totalmente nem o melhor nem o pior de si mesmo. Somos luz e sombra.

Conviver com a diversidade de opiniões amplia nossa percepção dos vários modos de ver a mesma situação. Exercitar a curiosidade para entender o que leva outras pessoas a pensar tão diferente de nós contribui para encontrar pontos em comum nas divergências. Ou, pelo menos, possibilita um convívio respeitoso com as respectivas diferenças. Isolar-se nas próprias crenças, criando a ilusão de que estamos absolutamente certos limita nossa percepção de que a verdade tem várias faces.

Ao cortar vínculos afetivos com pessoas da família, amigos e amores por conta de divergências político-partidárias reduzimos a complexidade e a riqueza de milhares de interações e momentos compartilhados a um rótulo carregado de menosprezo: “nazista”, “comunista” e que tais. Quando aprisionamos as pessoas a um rótulo empobrecemos nossa percepção. Somos multifacetados.

Os conflitos surgem das divergências de opiniões, valores, visões de mundo. Porém, diferença não significa incompatibilidade. Podemos transformar conflitos que ameaçam tornar-se intratáveis quando mostramos disposição para ouvir o que os outros pensam e sentem e quando conseguimos expressar o que pensamos e sentimos sem ferir, humilhar ou menosprezar os outros.

Diferenças não nos impedem de circular pelas pontes e restaurá-las quando é preciso, em vez de continuar cavando trincheiras que aumentam a distância entre nós.

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Desenvolvendo a empatia

Quando mergulhei na Grande Barreira de Coral, na Austrália, vi muitos seres diferentes compartilhando o mesmo espaço.

Quando mergulhei na Grande Barreira de Coral, na Austrália, vi muitos seres diferentes compartilhando o mesmo espaço.

A habilidade de compreender o que o outro sente imaginando-se em seu lugar pode começar a ser desenvolvida nos primeiros anos de vida.

No início da década de 1990, pesquisadores de neurociência descobriram os “neurônios-espelho”, a base neurofisiológica da empatia. Eles já são atuantes no cérebro das crianças pequenas e podemos estimular seu potencial cultivando a gentileza e a percepção do outro a partir dos 18 meses de idade. “Seu amigo vai ficar contente se você der a ele um biscoito” ou, ao contrário, “seu amigo ficou chateado porque você bateu nele, peça desculpas”.

Embora a criança pequena ainda se veja como centro do mundo e queira que tudo gire em torno dos seus desejos, começa a desenvolver a capacidade de ver que os outros também existem com seus próprios desejos e necessidades que precisarão ser levados em consideração.

O desenvolvimento da empatia e o respeito pelas diferenças marcam a transição do “eu” para o “nós” e são alicerces fundamentais da capacidade de resolver conflitos de modo justo e equilibrado.

Para viver em um mundo de diferenças onde tudo e todos estão interconectados, a empatia será cada vez mais indispensável. Caso contrário, veremos o aumento da intolerância, do preconceito e de ações de discriminação.

Carl Rogers, que idealizou a “terapia centrada na pessoa” falava da importância de psicoterapeutas e educadores desenvolverem a compreensão empática, que permite o mergulho na subjetividade do outro, para perceber como ele vê o mundo. Quando interagimos com alguém que nos compreende com empatia, nos sentimos acolhidos e respeitados.

A escuta atenta e sensível do ponto de vista do outro é um requisito essencial para o exercício da empatia. Essa qualidade de escuta e a habilidade de expressar com clareza nosso próprio ponto de vista podem ser desenvolvidas no decorrer da vida e são os principais recursos para a solução de conflitos. Com isso, conseguimos perceber os pontos em comum mesmo quando há grandes divergências e construir a base para os acordos de bom convívio.

Trabalhar em família pode dar certo!

Fui convidada para participar do programa Sem Censura para comentar os depoimentos dos participantes sobre a experiência de integrar relação familiar com relação profissional. Falamos sobre desafios e oportunidades, destacando alguns temas:
• Desenvolver o espírito empreendedor- procurar perceber oportunidades, capacitar-se para fazer um bom plano de negócios, descobrir nichos de mercado, ter visão de futuro, ter persistência e determinação para vencer obstáculos;
• Equilibrar ousadia e cautela- estimular a criatividade para desenvolver novos produtos e serviços, descobrir os próprios talentos no decorrer do tempo, expandir possibilidades;
• De pais para filhos- transmitir a noção de compromisso, responsabilidade, cooperação, complementação de habilidades dos vários membros da família/empresa, aprendizagem contínua;
• Aprimorar a competência para resolver conflitos por meio da escuta atenta para as diferentes visões- descobrir os pontos em comum nas divergências e colocar o foco no que todos querem alcançar (um bom convívio na família, a prosperidade do negócio familiar) para escolher, em conjunto, os melhores caminhos a serem trilhados.
Nem tudo são flores, é claro. Já trabalhei com pessoas que admnistravam empresas familiares que se queixavam de grandes dificuldades de convívio na família e no trabalho. Em uma delas, a filha da dona da empresa que trabalhava na gerência tratava os colaboradores com arrogância e prepotência, gerando ressentimento e revolta que acabavam prejudicando o desempenho das equipes; em outra, a dificuldade do fundador de aceitar sugestões dos filhos sobre novas perspectivas de gerenciar a empresa travava a expansão dos negócios; a rivalidade entre irmãos, a impressão de que um está sendo mais favorecido do que o outro são também questões importantes que dificultam a integração entre a relação familiar e a profissional.
Apesar das dificuldades que comumente surgem nesses empreendimentos, trabalhar em família pode dar certo!