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Submissão

 

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O quanto nos dobramos carregando o peso da submissão? (Fotografei no MAM, na exposição das esculturas de Ron Mueck).

No caleidoscópio da submissão, é possível ver diversas imagens, que revelam o medo de desagradar, de ser rejeitado ou de sofrer violências e sanções.

O grupo de amigos que escolheu esse tema para conversar teceu boas reflexões sobre o que nos conduz a comportamentos de submissão em relacionamentos familiares, sociais, no trabalho e até entre nações.

De concessão em concessão, a pessoa acaba na submissão – disse uma das participantes. Entre casais, quando um faz muitas concessões, a outra pessoa acaba impondo seus desejos e tomando a maior parte das decisões que poderiam ser compartilhadas. Na maioria dos casos de violência intrafamiliar, a submissão funciona como proteção para evitar agressões pesadas. Apesar disso, ainda é assustadoramente elevado o número de mulheres agredidas e até assassinadas por parceiros e ex-parceiros.

Há também a violência disfarçada de “carinho” ou “zelo” – “Querida, você não precisa mais trabalhar fora”, “Fico enciumado quando você usa roupa decotada”. Em casos extremos, a pessoa deixa de saber quem realmente é e se torna a sombra do outro.

“Mas a submissão pode encobrir um poder secreto” – agregou outra participante, comentando a tática comumente utilizada por um dos cônjuges e também por filhos que evitam questionar abertamente os comandos dos pais: “Vou fazer de conta que faço o que você quer mas, sem que você perceba, vou fazer o que eu quero”.

O temor de ser abandonado motiva comportamentos de submissão: “Se eu fizer o que ela quer, não sofrerei rejeição” na relação amorosa ou pela amiga “popular” que a incluiu em seu grupo na escola, desde que aceite seus comandos.

A submissão também é motivada por dependência emocional/financeira: a pessoa não se sente capaz de prover o próprio sustento, teme não conseguir tomar conta de si mesma, não quer perder os benefícios materiais que lhe são proporcionados.

Como preenchemos os buracos internos? O grupo refletiu sobre a submissão ao álcool e outras drogas, que oferecem a muitas pessoas a esperança de se sentir melhor, pelo menos por alguns instantes, ou dá ao adolescente tímido mais confiança para abordar as garotas.

É difícil perceber como nos submetemos à propaganda subliminar: Sinto-me mais feliz quando bebo determinada marca de refrigerante? Compro sapatos de bico finíssimo para não ficar fora de moda, embora eles machuquem meus pés? “Preciso” comprar o modelo de celular mais avançado para não me sentir desprestigiado perante meus colegas de trabalho?

Em cenários mais amplos, observamos muitos moradores de comunidades que se submetem à lei do silêncio ou do recolhimento compulsório, segundo as ordens do chefe do tráfico. Ou pagam sem ousar reclamar os preços abusivos do gás e de outros serviços prestados pelas milícias.

E há os casos extremos de líderes carismáticos, políticos ou religiosos, aos quais os seguidores se submetem por acreditarem nos ideais que pregam, mesmo quando a realidade mostra que as promessas feitas não serão cumpridas.

A submissão às normas sociais aprisiona a liberdade. Pensamos sobre sociedades que impedem as mulheres de saírem desacompanhadas ou impõem severas restrições a seu modo de vestir.

Não há como escapar de todas as possibilidades de submissão. Mas é possível refletir, rever e mudar os comportamentos submissos que nos trazem prejuízos evitáveis.

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“Não estou disponível”!

Quando fotografei esses cactos no Jardim Botânico (RJ), lembrei de pessoas se espetando em brigas incessantes.

Quando fotografei esses cactos no Jardim Botânico (RJ), lembrei de pessoas se espetando em brigas incessantes.

– Você pode me escutar? Hein?! Cara, eu quero que você me escute! Não estou afim de ir pra sua casa hoje à noite! Você acha que eu tenho que ficar disponível sempre que você quiser? Tô fora!

A moça, de uns vinte anos, estava sentada ao meu lado, no ônibus para Copacabana. Não consegui escutar o que ele dizia, mas ela estava irritada, reafirmando várias vezes que não estava disposta a ceder.

Como terapeuta de casal e de família, presenciei inúmeras vezes esse jogo de poder. Desejos divergentes gerando posições inflexíveis pelo medo de perder a batalha. Reclamações, queixas e acusações ocupando o espaço dos acordos possíveis. Com a repetição incessante de seus próprios argumentos, nenhum deles escuta o que o outro realmente tem a dizer.

Os conflitos surgem a partir das diferenças de necessidades, desejos, pontos de vista. Cada um de nós desenvolve diversas estratégias para resolver conflitos. Há quem prefira ceder aos desejos dos outros para evitar brigas. No entanto, o uso excessivo dessa estratégia acaba acumulando mágoa e ressentimento que podem minar a relação e cultivar uma crescente insatisfação. O dominador aparentemente ganha as batalhas impondo seus desejos e opiniões. Mas pode ter dificuldade de entender o progressivo distanciamento do outro, o esfriamento da relação pela insatisfação que se acumula. Alguns se surpreendem quando o outro, cansado e frustrado por tanto ceder, explode e vai embora de repente.

Saltei do ônibus pensando no que aconteceria com eles naquela noite. O desejo de ficarem juntos seria mais forte do que o jogo de poder? Conseguiriam chegar a uma solução razoável para ambos? Ou o impasse se arrastaria ainda mais, azedando o clima da relação?

Quando ambos estão dispostos a encontrar a melhor forma de cuidar bem do relacionamento é possível sair da rigidez das respectivas posições e captar com sensibilidade as necessidades subjacentes. “Tem que ser do jeito que eu quero” passa a ser menos importante do que buscar “o que cada um de nós pode fazer para que a gente fique bem juntos”.

Ceder não é se submeter!

Gosto de observar a água contornando os obstáculos das pedras, como nesse rio que fotografei na Serra da Bocaina (SP).

Gosto de observar a água contornando os obstáculos das pedras, como nesse rio que fotografei na Serra da Bocaina (SP).

Quem é “turrão” empaca em suas próprias posições para marcar território em jogos de poder que intensificam impasses, transformam muitos conflitos em problemas crônicos e impedem a construção de consensos.

Na raiz dessa atitude, uma enorme insegurança. “Não cedo nem um milímetro!”. Há também o medo de perder a própria identidade: “Se mudar de opinião deixarei de ser eu mesmo”. Isso configura rigidez, que também revela o orgulho de “não dar o braço a torcer”. Uma falsa demonstração de força.

Melhor do que ganhar uma discussão é ver o que podemos ganhar com ela. A disposição para ouvir os argumentos e os pontos de vista do outro e a habilidade de expressar com clareza nossa visão sobre a situação prepara o terreno para descobrir os pontos em comum mesmo quando há profundas divergências. Aprimorar a capacidade de escuta permite ampliar a visão de ambas as partes sobre a situação. Isso permite maior flexibilidade para rever nossa posição e construir uma saída satisfatória para resolver o impasse. Nesse sentido, ter flexibilidade não significa ceder no sentido de se submeter.

Por outro lado, há quem tente sistematicamente resolver conflitos cedendo, abrindo mão de seus desejos e necessidades para se submeter às exigências dos outros. São as pessoas “boazinhas”, que temem ser rejeitadas caso explicitem discordância. Com isso, acumulam secretamente ressentimento e mágoa. Crianças que abrem mão de seus pertences quando coleguinhas tirânicos assim o exigem, mulheres que se anulam para ceder aos caprichos de companheiros machistas, adolescentes que aceitam as regras impostas pelos “populares” para fazer parte do grupo são alguns exemplos de submissão.

A questão é ser flexível para avaliar o que é possível ceder para obter melhores resultados na construção de um consenso que resulte em uma solução satisfatória para ambas as partes.