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Polarização, radicalização: há saídas?

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Quando entramos na trilha da radicalização nossos pensamentos ficam petrificados (Fotografei na Chapada das Mesas, MA).

No livro A era do imprevisto, o sociólogo Sérgio Abranches afirma que a polarização e a radicalização tendem a se acentuar em épocas de grandes transições, como a que estamos vivendo no século XXI, que está gerando uma enorme incerteza e cujos rumos ainda estão indefinidos. Não dá nem para vislumbrar onde vamos chegar nessa sucessão de crises. Sob o impacto de mudanças velozes difíceis de acompanhar, muitos se protegem da perplexidade e da angústia sob o manto do conservadorismo (e até do fundamentalismo), fecham-se em círculos de pessoas que pensam do mesmo modo e se recusam a ouvir as vozes dissonantes. Agarrados ao que conhecem, evitam se estilhaçar diante das mudanças que não conseguem acompanhar, compreender e processar.

Na conversa com um grupo de amigos sobre o tema, uma participante comentou sobre a influência das redes sociais na questão da polarização. Os algoritmos rapidamente detectam nossas tendências, preferências e opiniões. Com isso, automaticamente selecionam para exibir em nossa linha do tempo postagens cujo teor corresponde ao que pensamos e desejamos. Isso contribui para fechar o círculo do “mais do mesmo”. As redes de ódio e de intolerância intensificam o posicionamento do tipo “nós contra eles” em diversos contextos, radicalizando opiniões e ações.

No cenário político e nas torcidas de futebol a polarização e a radicalização estão tão acentuadas a ponto de romper amizades e relações familiares, promovendo brigas que muitas vezes acabam em agressões pesadas e até em assassinatos. O “outro” deixa de ser apenas “o diferente” e passa a ser o inimigo a ser hostilizado e, no limite, aniquilado.

Em meu livro O bom conflito, abordei a questão dos chamados conflitos intratáveis, que são destrutivos, duradouros e resistentes à resolução. Às vezes, atravessam gerações resistindo aos esforços de chegar a um consenso. Porém, mesmo quando o conflito é considerado intratável, é possível fazer com que ele seja menos destrutivo, apesar da possibilidade de nunca alcançar um acordo satisfatório. Os adversários podem aprender a conviver com as diferenças com menos hostilidade e violência.

Para isso, é preciso haver alguma abertura para ouvir os argumentos “do outro lado” até chegar a pontos de convergência, encontrando semelhanças nas diferenças e áreas de acordos possíveis mesmo quando há profundas divergências.  Alguns exemplos: grupos de mães palestinas e israelenses que perderam filhos em combate se unem em torno da dor da perda e começam a trabalhar pela paz. Grupos contra e a favor da descriminalização do aborto descobrem, como ponto em comum, a possibilidade de trabalhar em conjunto fazendo campanhas de conscientização e de amplo acesso a métodos contraceptivos para evitar gestações não planejadas. A discussão a favor ou contra as cotas raciais nas universidades conduz a um ponto em comum: batalhar pela melhoria da qualidade do ensino fundamental para todos.

No entanto, sem a escuta do ponto de vista do outro, é impossível chegar a consensos e, nesses cenários, a polarização caminha rapidamente para a radicalização. O pensamento fica petrificado em torno de uma “verdade única”. Só a escuta respeitosa das diferentes perspectivas pode gerar ideias novas e soluções mais eficientes para as situações que se apresentam.

Abranches, S., A era do imprevisto – a grande transição do século XXI. Ed. Companhia das Letras, SP, 2017.

Maldonado, M.T., O bom conflito – juntos buscaremos a solução. Integrare Editora, SP, 2008.

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Famílias possíveis

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Para onde nos levarão os caminhos que escolhemos seguir? (Fotografei em Jericoacoara, CE).

“Quando o Natal está próximo, fico triste. Lembro da minha infância, a família grande reunida, a mesa farta, a casa enfeitada com uma grande árvore com bolas e luzes coloridas, as caixas de presentes, o presépio montado. Minha mãe sempre tomava a iniciativa de coordenar as festas. Depois que ela morreu, acabou. Cada um fica no seu canto, ninguém se encontra mais” – desabafa Vânia, separada com dois filhos que passam o Natal com o pai e o Ano Novo com ela.

Raramente alguém vive, na prática, o seu ideal de família, sobretudo quando essa imagem é muito próxima da perfeição e, por isso, muito longe da realidade. Família são laços de amor, acolhimento, bons cuidados, intimidade, mas esses laços também incluem desentendimentos, raiva, mágoa, distanciamento e confusão. Cada um de nós tem uma família possível. Quando aproveitamos da melhor forma nossa “família possível” conseguimos desfrutá-la de acordo com suas características. E até mesmo criar alternativas viáveis para substituir o que gostaríamos que fosse mas que não dá para ser. Algumas possibilidades:

  • Uma celebração de “pré-natal” quando, no dia oficial, há compromissos com outros núcleos familiares;
  • Crianças e adolescentes que se sentem amados e bem cuidados por pessoas que não pertencem à família biológica e com elas constroem vínculos socioafetivos;
  • Definir como família os laços em que predomina o compromisso de amar e de cuidar, nas mais diversas composições fora do convencional;
  • Perceber que, apesar da distância geográfica, é possível buscar a proximidade da conversa e a consistência do cuidado (filhos e netos que moram em outras cidades ou países, por exemplo);
  • Tentar transformar mágoas e ressentimentos em compreensão para que, mesmo após o término do casamento, seja possível construir uma relação pelo menos razoável como pai e mãe (para não permanecerem casados pelo ódio).
  • Mesmo quando o relacionamento está esgarçado ou rompido, pode-se tentar restaurá-lo em algum nível.

Entre o ideal e o real existe o possível. Vale a pena tentar fortalecer a esperança e ampliar a capacidade de amar!

A prisão da mágoa

Uma obra de arte que fotografei em Inhotim(MG), que me fez pensar nos emaranhados de alguns relacionamentos...

Uma obra de arte que fotografei em Inhotim(MG), que me fez pensar nos emaranhados de alguns relacionamentos…

O que fazemos com o que fazem conosco?

Temos múltiplas escolhas de caminhos a seguir.

Em muitas ocasiões, nos sentimos decepcionados e magoados por amigos, filhos, parceiros amorosos, colegas de trabalho. E também decepcionamos e magoamos muitas pessoas no decorrer da vida. Até mesmo sem perceber ou sem ter intenções explícitas de ofender quem quer que seja.

Fred e Marisa frequentavam o mesmo grupo de amigos. Há quatro anos, ela foi demitida. Sem reserva financeira e com a família morando em outra cidade, Marisa pediu a Fred que a acolhesse em seu apartamento até que conseguisse um novo emprego. Apesar de gostar da liberdade de morar sozinho, ele aceitou o pedido da amiga, e se sentiu constrangido para combinar com ela algumas regras básicas de convivência.

Agradecida, Marisa colaborou com as tarefas da casa nas primeiras semanas. Depois, passou a se queixar de cansaço e desgaste pelas tentativas frustradas de se recolocar no mercado de trabalho, deixando a organização da casa por conta de Fred. Dez meses depois: nenhuma oferta de emprego a agradou, e Fred não aguentava mais aquela situação. No limite, disse que não poderia mais mantê-la como hóspede.

Furiosa, Marisa disse que ele era egoísta e mesquinho. Enraivecido, Fred rebateu dizendo que ela era ingrata e insensível. A amizade foi rompida, e ambos guardam mágoas desde então.

Como contribuímos para criar em conjunto uma situação potencialmente difícil? Pedimos aos amigos algo além do que eles podem oferecer? Temos dificuldade de dizer “não” a alguns pedidos, por medo de perder o relacionamento? Criamos altas expectativas e nos decepcionamos quando as pessoas não fazem o que esperávamos? Apresentamos uma imagem ideal de nós mesmos, escondendo a humanidade de nossos limites e imperfeições?

Há ocasiões em que nos aprisionamos na mágoa crônica e cultivamos amargura, ressentimento, desejo de vingança ou tristeza infinita. Isso nos intoxica e nos adoece. Se não foi possível evitar que o outro nos magoasse, convém lembrar que temos a liberdade de não deixar que essa dor ocupe tanto espaço em nosso coração. Podemos decidir não generalizar a decepção (“ ninguém merece minha confiança!”) e, com isso, evitar o risco de fechar muitos caminhos de vida. Os sentimentos se transformam e se encadeiam uns nos outros. Se o que alguém fez (ou deixou de fazer) nos trouxe sofrimento, cabe a nós não permitir que essa dor se eternize e nos condene à prisão perpétua da mágoa.

Atacar os problemas sem atacar as pessoas

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– A que você associa a palavra “conflito”?

Costumo abrir as Oficinas sobre Estratégias na Solução de Conflitos com essa pergunta. A grande maioria dos participantes associa conflito a problema, desentendimento, briga, disputa, bate-boca, desgaste emocional. Poucos consideram o conflito como oportunidade, e até mesmo como evolução do relacionamento.

As divergências de opiniões, necessidades, visões do mundo e contextos culturais formam as raízes de conflitos e geram conversas difíceis nas relações familiares, sociais e profissionais. O recurso mais importante para a resolução de conflitos é a escuta atenta e respeitosa do ponto de vista do outro e a habilidade de expressar com clareza nosso próprio ponto de vista. Com isso, torna-se possível captar o que os outros sentem, tratando de descobrir os pontos em comum, mesmo quando há profundas divergências. É nesse terreno que poderemos construir “acordos de bom convívio”.

Para isso, é preciso acreditar que não há uma verdade absoluta. Melhor do que ganhar a discussão é ver o que podemos ganhar com ela, criando uma terceira história que não é exatamente a nossa nem a do outro, mas a que conseguimos elaborar a partir do entendimento recíproco.

No caleidoscópio, com as mesmas peças, vemos imagens diferentes sempre que o giramos de um lado para o outro. Não há imagens certas nem erradas, apenas diferentes. Assim acontece com as diversas visões do mesmo fato ou da mesma situação.

Podemos contar com um poderoso instrumento de transformação: a flexibilidade de nos examinarmos para descobrir como contribuímos para o problema e o que podemos fazer para solucioná-lo. Quando deixamos de colocar a culpa nos outros e paramos de reclamar por não ganhar o que queremos, conseguiremos transformar conversas difíceis em diálogos eficazes.

Essa flexibilidade não significa abrir mão de nossos valores e de crenças fundamentais. Podemos dizer “Não” com habilidade, abrindo a porta para dizer “Sim” à preservação do relacionamento, respeitando as diferenças e buscando soluções que não haviam sido pensadas anteriormente, em clima de colaboração. Os adversários passam a ser “sócios” do problema: aprendemos a atacar o problema sem atacar as pessoas. Todos ganham com isso.