“Não há mais o que fazer”…

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No ciclo da vida, viver cada dia em plenitude (Fotografei na Patagônia chilena).

Fiquei emocionada ao assistir “A morte é um dia que vale a pena viver”, palestra TED com a médica Ana Cláudia Quintana Arantes, que se dedica a oferecer cuidados paliativos para as pessoas que estão no fim da vida, a partir do momento em que muitos profissionais dizem que não há mais nada a ser feito.

Ela esclarece que “paliativo” vem de “pallium”, um manto que era colocado nas costas dos cavaleiros das Cruzadas para protegê-los das intempéries. E, nesse sentido, cuidados paliativos significa proteger do sofrimento, tratar do controle dos sintomas aliviando ao máximo o sofrimento físico para cuidar melhor das demais dimensões do sofrimento (emocional, familiar, social, espiritual). Visto dessa forma, há muito a fazer para cuidar de pessoas mesmo quando a doença não tem cura e segue seu curso inevitável.

Eu trabalhei em hospitais com equipes de saúde e coordenei muitos grupos de relacionamento médico-cliente-família. O final da vida breve de alguns bebês internados em UTI Neonatal e os últimos dias de uma vida mais longa de adultos e idosos me fizeram ver que há muito a ser feito na assistência a pessoas que estão morrendo e a suas famílias. Todos nós temos muito a aprender sobre a vida quando a olhamos pela perspectiva da morte.

Já tendo passado dos sessenta, tenho acompanhado o fim da vida de muitas pessoas queridas, da família e do grupo de amigos. Quando a morte não chega repentinamente, como em um acidente fatal, é possível aprofundar a percepção do sentido da vida, rever a própria trajetória, expressar gratidão, refazer vínculos, aproveitar da melhor forma o tempo que resta.

Mas, independentemente da idade que temos, não sabemos quanto tempo temos pela frente. Qual o sentido que estamos encontrando para nossa vida? Como estamos nutrindo nossos vínculos afetivos? Como estamos aproveitando o privilégio de viver?

O convívio com os filhos pré-adolescentes

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A escultura hiper-realista de Ron Mueck, que fotografei no Museu de Arte Moderna, no Rio de Janeiro, em 2014.

Muitos pais se surpreendem com as mudanças que percebem em seus filhos e filhas entre nove e doze anos. Uma crescente habilidade para argumentar e defender seus próprios pontos de vista quando os pais colocam limites que contrariam seus desejos. A maior proximidade e influência do grupo de amigos. A necessidade de serem mais independentes. O humor que oscila. Enfim, grandes mudanças no corpo, nas emoções, no comportamento, no modo de expressar o que sentem e o que pensam. Eles próprios se estranham diante dessas rápidas e intensas transformações.

Construir um relacionamento familiar sólido também nessa etapa do desenvolvimento é a melhor maneira de evitar problemas na turbulência da adolescência.

Algumas décadas de prática no atendimento de famílias (além de ser mãe de um casal de filhos que já passaram por essa etapa) me mostram as questões mais frequentes:

  • Necessidade de ser escutado e compreendido – essa etapa é de grandes descobertas em relação ao mundo e às pessoas. Desenvolvem visão crítica sobre os acontecimentos e sobre o que as pessoas fazem, ampliam seus interesses e exploram novos temas. Pais curiosos e interessados em conhecer melhor essas descobertas escutam com atenção, fazem perguntas (e não interrogatórios) para entender os pontos de vista dos filhos e, com isso, conseguem expandir os temas de conversa em família. Pais que se apressam em dar sermões, criticar na base do “você está errado, não tem experiência de vida”, restringem o diálogo e promovem o afastamento.
  • Tempo de convívio – mesmo com as agendas cheias de compromissos, é possível criar tempo para conversas em particular ou com todos (na ida para a escola, no lanche de fim de semana em que todos vão para cozinha, em um programa que atraia o interesse de todos).
  • A dificuldade de equilibrar deveres e prazeres – a atração por videogames, redes sociais e outras brincadeiras é poderosa.  Quase sempre, o tempo reservado para o estudo e demais tarefas é invadido por essas atividades. É preciso haver acordos e limites bem claros para desenvolver hábitos de estudo, responsabilidade com os próprios pertences e cooperação com as tarefas domésticas.
  • Hábitos de autocuidado – em geral, os pré-adolescentes ainda não sabem cuidar bem de si mesmos com autonomia e, portanto, a orientação sobre tempo adequado de sono, alimentação, exercícios físicos e higiene pessoal continua sendo necessária, mesmo quando aparentemente eles se rebelem quanto a isso.

 

Riscos globais 2017 e a educação

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O fluxo da água das cachoeiras me faz lembrar da mutação incessante do mundo (Fotografei na Chapada das Mesas, MA).

A cada mês de janeiro, gosto de ler o relatório do Fórum Econômico Mundial sobre os riscos globais e pensar como famílias e escolas podem preparar crianças e adolescentes para viver nesse mundo. Em anos recentes, a ênfase tem sido na necessidade de fortalecer a resiliência para enfrentar as múltiplas transições que chegam com inúmeras incertezas. Este ano, a ênfase é na necessidade de fortalecer a cooperação.

Sobre as múltiplas e complexas transições o relatório destaca: a migração para uma economia de baixo carbono; a mudança tecnológica cada vez mais acelerada; o equilíbrio geopolítico, com a questão da desigualdade e da polarização da sociedade em termos étnicos, religiosos e culturais.

Para lidar com essas transições, é preciso pensar em investimentos a longo prazo e fortalecer a cooperação internacional. Até mesmo porque há áreas globais em comum (oceanos, qualidade do ar, mudanças climáticas) que causam impacto em todo o planeta. Por exemplo, a escassez de água ou eventos climáticos extremos ocasionam a migração involuntária de milhões de pessoas que vivem em áreas mais vulneráveis.

Embora as mudanças climáticas extremas estejam crescendo mais rapidamente do que as ações destinadas a mitiga-las, o relatório destaca o aumento significativo do uso de energias renováveis (cujo custo está se reduzindo) e do manejo sustentável de florestas.

A chamada Quarta Revolução Industrial está delineando enormes mudanças na maneira de trabalhar e de viver. Com o avanço acelerado da automação, da robótica e da inteligência artificial, muitos postos de trabalho estão desaparecendo, os estilos de trabalho estão mudando, assim como a proteção ao emprego, e a tendência crescente é o aumento do trabalho autônomo, temporário ou em tempo parcial.

Nesse cenário, nas famílias e nas escolas, é essencial estimular a cooperação e o trabalho em conjunto, propostas para pensar coletivamente soluções inovadoras para problemas em comum, o consumo consciente, a flexibilidade para se ajustar a grandes variações do orçamento doméstico e o desenvolvimento de múltiplos talentos e habilidades para poder atuar em diferentes áreas, que nem sempre estarão diretamente relacionadas com a formação acadêmica escolhida.

Para ler o resumo do relatório:

https://www.weforum.org/agenda/2017/01/global-risks-in-2017

Para ler o relatório completo:

http://www3.weforum.org/docs/GRR17_Report_web.pdf

Eles se odeiam, mas não se separam!

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Há relações que ferem com fogo e com gelo (Fotografei em Pucón, Chile).

“O amor e o ódio se irmanam na fogueira das paixões” e “o amor e o ódio se irmanam na geleira das paixões” são duas frases pinçadas de As aparências enganam, composição de Tunai e Sérgio Natureza, que gosto de ouvir na magnífica interpretação de Elis Regina.

Como terapeuta já vi muitas pessoas atravessarem décadas unidas por essa mescla de raiva, desprezo, ódio, amor e cumplicidade. Padrões trançados de dependência em que as respectivas loucuras se complementam. Casais, pais e filhos, irmãos. Relacionamentos rompidos, às vezes refeitos. Raiva quente e raiva gelada. Brigas violentas, explosivas ou a geleira da indiferença, do afastamento, do abandono. Uma capa de indiferença (“não quero mais nada com meu pai”) escondendo a mágoa doída pela percepção da ausência quando precisava de presença.

Casais que se separam, mas permanecem casados pelo ódio, pelos ataques recíprocos, os filhos no meio do tiroteio com os pais que se desqualificam e cobram lealdade (“se continuar defendendo sua mãe estará contra mim”). Pessoas imobilizadas pelo ressentimento, culpando o outro por sua própria infelicidade. O outro pode ter feito coisas que nos machucaram, mas somos nós que escolhemos nutrir a permanência dessa dor ou transformá-la.

Giovani, 42 anos diz: “Desde pequeno ouço minha mãe gritar que não aguenta mais meu pai, que vai se separar e viver a vida. Eles se odeiam, é briga o tempo todo, xingamento, agressões pesadas. Não entendo como ainda estão casados!”

O que liga esses casais? Às vezes, a briga é combustível para um bom sexo. Às vezes, é a distância segura que protege do medo da intimidade. E há os que gostam de “brincar de gangorra”, desqualificando o outro para se sentir superior. Muita gente sente medo da solidão (“ruim com ele, pior sem ele”), difícil aprender a curtir a própria companhia. Ou medo de mudar, sair da “zona de conforto” por mais desconfortável que esteja.

Os caminhos do amor e do desamor são complexos e misteriosos (até mesmo para terapeutas de família)!

Famílias possíveis

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Para onde nos levarão os caminhos que escolhemos seguir? (Fotografei em Jericoacoara, CE).

“Quando o Natal está próximo, fico triste. Lembro da minha infância, a família grande reunida, a mesa farta, a casa enfeitada com uma grande árvore com bolas e luzes coloridas, as caixas de presentes, o presépio montado. Minha mãe sempre tomava a iniciativa de coordenar as festas. Depois que ela morreu, acabou. Cada um fica no seu canto, ninguém se encontra mais” – desabafa Vânia, separada com dois filhos que passam o Natal com o pai e o Ano Novo com ela.

Raramente alguém vive, na prática, o seu ideal de família, sobretudo quando essa imagem é muito próxima da perfeição e, por isso, muito longe da realidade. Família são laços de amor, acolhimento, bons cuidados, intimidade, mas esses laços também incluem desentendimentos, raiva, mágoa, distanciamento e confusão. Cada um de nós tem uma família possível. Quando aproveitamos da melhor forma nossa “família possível” conseguimos desfrutá-la de acordo com suas características. E até mesmo criar alternativas viáveis para substituir o que gostaríamos que fosse mas que não dá para ser. Algumas possibilidades:

  • Uma celebração de “pré-natal” quando, no dia oficial, há compromissos com outros núcleos familiares;
  • Crianças e adolescentes que se sentem amados e bem cuidados por pessoas que não pertencem à família biológica e com elas constroem vínculos socioafetivos;
  • Definir como família os laços em que predomina o compromisso de amar e de cuidar, nas mais diversas composições fora do convencional;
  • Perceber que, apesar da distância geográfica, é possível buscar a proximidade da conversa e a consistência do cuidado (filhos e netos que moram em outras cidades ou países, por exemplo);
  • Tentar transformar mágoas e ressentimentos em compreensão para que, mesmo após o término do casamento, seja possível construir uma relação pelo menos razoável como pai e mãe (para não permanecerem casados pelo ódio).
  • Mesmo quando o relacionamento está esgarçado ou rompido, pode-se tentar restaurá-lo em algum nível.

Entre o ideal e o real existe o possível. Vale a pena tentar fortalecer a esperança e ampliar a capacidade de amar!

Treine sua mente, mude seu cérebro!

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Esse objeto me fez pensar como é importante cuidar bem da delicada rede neuronal do nosso cérebro.

“O cérebro está sempre em mutação, a maior parte do tempo sem nossa participação consciente”. “O bem-estar é uma habilidade que pode ser cultivada” – Essas frases me chamaram a atenção quando assisti palestras de Richard Davidson, psicólogo e neurocientista, que comanda um laboratório de pesquisas na Universidade de Wisconsin.

A construção do bem-estar se fundamenta em alguns pilares:

  • Neuroplasticidade – Podemos modelar nosso cérebro para cultivar o bem-estar, podemos meditar para, voluntariamente desenvolver a compaixão. Nossos pensamentos, experiências e relacionamentos fazem e refazem os circuitos neuronais.
  • Epigenética – Como os genes se expressam, ligam ou desligam sob a influência das experiências de vida e dos relacionamentos. Cada gene tem uma espécie de controle de volume que pode ser mudado e regulado por nossas experiências. Temos predisposições genéticas, mas a meditação, por exemplo, pode modular a expressão dos genes.
  • Há uma via de mão dupla entre cérebro e corpo – mudanças em um causam impacto no outro. É possível cultivar o bem-estar praticando atividades físicas e focalizando as emoções positivas.
  • Expandir a generosidade, fortalecer a resiliência (a rapidez com que nos recuperamos das adversidades, cultivando emoções positivas), aprimorar o foco da atenção para estar integralmente no momento presente são outros elementos fundamentais para a construção do bem-estar.

No laboratório, cuja equipe é liderada por Davidson, o estudo da atividade cerebral de monges tibetanos com mais de dez mil horas de prática de meditação revelou circuitos cerebrais ativados pela compaixão, especialmente a ínsula e a amígdala. Descobriu-se também uma forte conexão entre o cérebro e o coração, quando a compaixão é desenvolvida. E tudo isso está ligado à construção do bem-estar.

Em outro experimento, sujeitos não praticantes tiveram duas semanas de treinamento em meditação, durante meia hora por dia, e viram que, mesmo com tão pouco tempo de prática, ocorriam mudanças no cérebro. Esses e outros estudos mostram a importância de trabalhar nossa mente positivamente para promover a saúde física e mental.

Micro autocuidado

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Mesmo com pouco tempo disponível, é possível cultivar o bem-estar. (Fotografei na Finlândia).

Respirar fundo três vezes algumas vezes por dia; prestar atenção no prazer de ensaboar e enxaguar as mãos; dois minutos de pausa para contemplar as nuvens; um minuto com os olhos fechados, prestando atenção na respiração; alongar braços e pernas após um tempo mergulhado em e-mails; fazer movimentos para relaxar pescoço e ombros, regiões do corpo que mais acumulam tensões. Pequenas ações, feitas com frequência no decorrer do dia, para se consolidarem em hábitos. Esse é o conceito de micro autocuidado, para quem diz que não dispõe de tempo para cuidar de si mesmo.

Profissionais de saúde podem fazer isso entre um cliente e outro, assim como mães de crianças pequenas que demandam muita dedicação, professores com grande carga horária de aulas, advogados estressados com prazos de processos. Enfim, todos nós. Para cuidar bem dos outros é preciso cuidar bem de si mesmo! Principalmente quando somos nosso próprio instrumento de trabalho.

Em neurociência, o conceito de neuroplasticidade autodirigida sugere que é possível criar novos caminhos neuronais em nosso cérebro fazendo repetidamente essas pequenas ações. A qualidade dos vínculos que temos com os outros e conosco mesmos modelam e remodelam as redes neuronais. Em termos de micro autocuidado, menos é mais.

Mesmo quando conseguimos criar tempo para saborear com calma o que comemos, tirar uma soneca depois do almoço, conversar descontraidamente com pessoas da família e amigos, dar uma longa caminhada ou fazer uma aula de dança, aproveitar as pequenas janelas de tempo para cultivar o hábito do micro autocuidado traz enormes benefícios para descarregar o estresse, renovar a energia e a disposição e estimular a sensação de bem-estar.

E você? O que pode fazer para ampliar seu repertório de micro autocuidado? Se ainda nem pensou nisso, que tal começar?

Sugestões de artigos sobre o tema:

http://www.courtneypinkerton.com/2012/09/27/micro-self-care/

http://www.goodtherapy.org/blog/no-time-for-self-care-simple-micro-practices-to-the-rescue-0601154

http://www.mindfulreturn.com/micro-self-care-a-necessity-for-new-mamas/

https://psychotherapynetworker.org/blog/details/993/who-says-self-care-has-to-be-monumental?utm_source=Silverpop&utm_medium=email&utm_campaign=111216_pn_i_rt_WIR_8amSTO