Apego, desapego, amparo, desamparo

323

Os compradores compulsivos se enchem de coisas desnecessárias, e não se desapegam dos itens que acumulam. (Fotografei em Bruxelas)

O ser humano nasce desamparado, dependente, incapaz de sobreviver se não tiver alguém que cuide dele. Pouco a pouco, desenvolve autonomia: para isso, é necessário amparar os primeiros passos, mas também deixar a criancinha cair e aprender a se levantar sozinha. Na nutrição do vínculo, é sutil o equilíbrio entre o apego que fortalece a sensação de estar amparado e sendo amado e o desprendimento que evita a superproteção, a dependência excessiva e simbiótica.

O apego a bens materiais é a vã tentativa de suprir um vácuo na relação do amparo primordial, que transmite segurança e forma a base da autoestima e da autoconfiança. Todos nós precisamos do olhar do outro para nos sentirmos aceitos e reconhecidos.

Os compradores compulsivos se enchem de coisas desnecessárias, e não se desapegam dos itens que acumulam. Rodeados de objetos, criam a ilusão de completude, de que nada lhes falta. Porém, de nada podem abrir mão porque “um dia, posso precisar dessas coisas”.

Para combater o consumismo, muitos estão promovendo “sessões de desapego”, doando ou trocando objetos e expandindo a noção de que temos uma infinidade de coisas de que, na verdade, não precisamos.

Escolher o que é realmente essencial e o que é dispensável pode inspirar ações como a de Margot, que acumulou centenas de objetos que adquiriu em suas inúmeras viagens ao redor do mundo, além dos presentes que ganhou dos amigos. Para comemorar seus 70 anos, arrumou a maioria desses objetos em uma grande mesa, convidou os amigos e disse que poderiam levar com eles o que quisessem. Preferiu guardar as lembranças somente na memória.

Cultivar relações significativas de amor e de amizade é vital para a construção do bem-estar que nos possibilita enfrentar situações difíceis e celebrar a vida em suas diversas etapas. O abraço do aconchego, que ampara, conforta, acolhe nos momentos difíceis e nos inunda de alegria nos bons momentos de encontro.

Mas há quem cultive o desapego nos relacionamentos, pelo medo de amar e de ser abandonado, de precisar do outro e não poder contar com ele. E então se refugia na crença de que não precisa de ninguém.

E, para alguns, o mais difícil é se desapegar de ideias, de símbolos de status, do poder conferido pelo cargo que ocupam.

Separação e novos amores na maturidade

041

Na travessia do tempo, determinação e coragem para desbravar caminhos.(Fotografei no Museu de Arte Naif, em Zagreb, Croácia).

Esse foi o tema do debate em um programa de rádio do qual participei. Com um número crescente de pessoas vivendo mais tempo e com melhor qualidade de vida, há oportunidade de fazer novos projetos, expandir interesses, mudar de profissão, fazer novas amizades e iniciar relacionamentos amorosos após a separação ou a viuvez. Quando um ciclo termina, outro começa. Afinal, o amor é eterno, mas os amados podem mudar…

Não é fácil fazer a travessia das perdas, mas elas são inevitáveis na vida de todos nós. Vida que segue. O tempo necessário para digerir perdas importantes é muito variável. Porém, quando a separação resulta em descrença da possibilidade de ser feliz com outra pessoa torna-se ainda mais difícil abrir o coração. Isso acontece quando nos deixamos tomar pelas lembranças amargas da desilusão e da decepção. Reconhecer que, apesar das dificuldades que surgiram e resultaram na separação, essa relação teve bons aspectos e “deu certo por um certo tempo”.

Amores e desamores fazem parte da nossa história e contribuíram para o que somos hoje. Apesar de ser mais fácil acusar o outro e responsabilizá-lo pelos problemas, reconhecer o que fizemos nos aspectos bons e ruins do relacionamento que terminou é essencial para nosso desenvolvimento pessoal.

O preconceito social contra o envelhecimento, juntamente com a excessiva valorização do corpo jovem, faz com que muitas pessoas (sobretudo as mulheres) se sintam invisíveis (“Ninguém mais olha para mim”). Isso inibe e desencoraja possíveis aproximações. No entanto, amar  é possível em qualquer idade – rugas e pele flácida não impedem a atração e o desejo para os que ousam perceber a beleza essencial.

A sexualidade madura pode ser ainda mais prazerosa do que na juventude quando nos libertamos da tirania do desempenho (a “transa como deve ser”) e da vergonha do corpo “imperfeito”. Isso possibilita um autoconhecimento mais refinado dos próprios caminhos do prazer e a percepção mais acurada do corpo sensível da pessoa amada. Quando atingimos essa etapa, descobrimos que a pele de todo o corpo é uma grande zona erógena que pode revelar novos matizes do prazer pela exploração da sensualidade e do erotismo, com criatividade, ternura e capacidade de brincar.

Transformando famílias

2016-Itamonte

Aproveitar as oportunidades que surgem abrem trilhas interessantes no caminho da vida. (Fotografei em Itamonte, MG)

“Eu estava muito preocupada com meu filho. Ele não tinha sonhos, não sabia o que queria da vida. Depois que entrou para a aula de vôlei na Cruzada conseguiu ser federado e leva a sério sua preparação. Diz que atleta não tem férias, que precisa cuidar da alimentação. Agora eu o vejo feliz, com objetivos, dedicado ao esporte. O desempenho na escola melhorou muito. O pai, que era muito ausente, agora participa mais da vida da família”. O jovem, de 13 anos, acrescenta: “Agora eu tenho um foco. Mesmo nas fraquezas, levanto a cabeça e sigo em frente, mesmo perdendo, mantenho o sorriso”.

“Minha filha, com 12 anos, passou a ter mais responsabilidade com os horários, tem disciplina. Estava muito ociosa, agora faz aulas de vôlei, judô, capoeira, hip-hop e cuida da roupa do esporte. Aliás, eu também entrei nessa dança e já perdi cinco quilos, estou mais animada. Além disso, com a ajuda da equipe, voltei ao mercado de trabalho. Fiz um curso de culinária e passei a fazer bolos, doces e salgados para vender. Consegui conciliar o tempo de cuidar da família e produzir”.

“Os professores da creche educam os pais na relação com os filhos” – disse a mãe de um menino de dois anos. “Confesso que eu sofria agressões do meu marido, e isso acabou depois que passamos a frequentar as reuniões de família. Fiz amizade com muitas mães, trocamos ideias, comemoramos aniversários juntas. A gente que mora em comunidades vê muitos pais que não cuidam dos filhos, vale a pena se acostumar com coisas boas”.

Da mãe de uma menina de quatro anos, que nasceu com síndrome de Down: “Parei de trabalhar para cuidar da minha filha, mas vi que ela precisava de outros cuidados. A creche acolheu nossa família com carinho e minha filha está se desenvolvendo muito bem, está mais sociável, desenvolveu a fala e a motricidade. Comecei a desenvolver grupos de apoio a famílias que passam por essa situação e transmitir informações para quem tem preconceitos de se aproximar de crianças como ela”.

Ao final da reunião do Conselho Consultivo da ONG Cruzada, da qual faço parte, algumas mães e alunos que frequentam a creche e os projetos do Plantando o Amanhã falaram sobre o impacto desse trabalho em suas famílias. Com o propósito de educar para transformar, a Cruzada estimula a participação das famílias e o desenvolvimento das competências de todos.

“Trabalhar é a maior felicidade”!

201607-Edite-Lençóis

A conversa com a artesã Edite, que fotografei na Chapada Diamantina (BA) foi uma lição de vida.

Foi assim que Edite, 74 anos, respondeu à primeira pergunta da pesquisa que estou fazendo sobre a construção da felicidade. Ela é artesã e mora em Lençóis, na Chapada Diamantina (BA). Trança palha, faz crochê, costura, faz bordado, fuxico, cerâmica. Trabalha na roça, também. “Só paro de trabalhar quando estou dormindo, comendo e no banheiro, cantando. Gosto de trabalhar desde que tinha uns três anos. A gente morava em fazenda, e eu ia com meu pai para o curral ajudar a tirar leite das vacas e também para a roça, para ajudar a plantar e a colher. Ele dizia para minha mãe deixar eu ajudar porque eu gostava de fazer isso. Com minha mãe, eu ia para a lagoa lavar roupa. Eles não trabalhavam sábado e domingo, então eu brincava com bonecas, arrumava a casa delas, convidava outras crianças para brincar comigo. E foi aí que aprendi a cozinhar, costurar, bordar”.

Aprendeu com o pai que o melhor é dormir e acordar cedo, além de descansar depois do almoço para “respeitar o corpo”. Diz que trabalho é remédio: quando sente qualquer mal-estar começa a trabalhar e tudo passa. “Tive 17 filhos mas só criei nove, os outros morreram pequenos. Naquela época, o que a gente mais via era caixão de anjo, muitos morriam novinhos, não tinha remédios nem médicos, como tem agora. Meus nove filhos dizem que se sentem felizes porque nunca me viram em uma cama de hospital”.

Diz que já explicou a mais de mil pessoas que lhe perguntam o que ela faz para viver sorrindo que o importante é trabalhar, que é isso que faz bem para a saúde. “Quem se concentra no trabalho não pensa nos problemas. Quem se preocupa muito adoece e isso não adianta nada, porque o que tem que ser já nasce assim e o que não tem que ser não é”. Às vezes fica preocupada com os três filhos que trabalham como caminhoneiros, mas pensa que Deus não vai deixar que nada de ruim aconteça e, então, a preocupação acaba. Não fica triste porque tem muito a agradecer à vida.

Faz projetos de vida a longo prazo: comprou uma terra e está organizando um sítio, plantando frutas e legumes para se alimentar bem. “Não é porque eu estou com 74 anos que vou deixar de fazer planos para o futuro”.

Edite é uma pessoa resiliente. Intuitivamente, pratica o que a neurociência ensina a respeito da neuroplasticidade autodirigida e a ciência da felicidade aponta sobre a importância da gratidão e da renovação de projetos de vida.

Nas teias dos relacionamentos

201

Que teias tecemos em nossos relacionamentos no decorrer da vida? (Tela de Hiroshige, que fotografei em uma exposição em Paris).

O grupo que conversou comigo sobre esse tema teceu muitos comentários sobre a teia da mágoa. A pessoa que nos magoa atinge nossas áreas mais vulneráveis “Eu me afasto da pessoa que me magoou” – disse uma participante. Porém, com isso, deixa de aproveitar bons aspectos desse relacionamento.

“Às vezes, a pessoa nem sabe que me magoou, eu simplesmente desapareço” – complementou. Desse modo, perde a oportunidade de propor uma conversa esclarecedora, que poderia restaurar o bom relacionamento. Vale pensar sobre o que podemos aprimorar em nossa expressão de sentimentos e na clareza da comunicação.

Como podemos nos libertar da teia da mágoa? Algumas ideias foram discutidas, entre as quais a importância de entender melhor a pessoa que nos magoou.  “Percebo que, quando consigo fazer isso até penso que talvez eu até fizesse o mesmo que o outro fez” – disse uma participante. E outro agregou: “Vivi muitos anos magoado com meus pais. Eu me sentia injustiçado, por perceber que eles mimavam meu irmão. Quando fiquei mais maduro, vi o quanto eu contribuía para que meus pais não me oferecessem tantos privilégios, porque eu era muito rebelde e grosseiro com eles”.

Aprofundar o autoconhecimento contribui para dissolver a mágoa: O que aconteceu para isso me atingir desse modo? Por que estou dando tanta importância para essa pessoa a ponto de permitir que ela me magoe tanto?

Há outras teias que nos aprisionam, como o ciúme que nasce do medo da perda e gera a necessidade de tudo controlar. E a da inveja, que paralisa nosso crescimento pessoal, consumindo energia em ver apenas o que o outro conquistou e o que nos falta. Com isso, muitos deixam de batalhar pelas próprias conquistas. Essas teias de relacionamento são tóxicas, fazem mal à nossa saúde física e mental.

Felizmente, há teias que nos trazem alegria e dão sustentação em momentos difíceis, como as da amizade, da solidariedade e do amor. Essa tecelagem, feita na base do respeito, da compreensão e da aceitação das diferenças, beneficia o crescimento de todos.

Como você define “pessoa difícil”?

IMG_4998

É preciso encontrar caminhos de acesso para nos comunicarmos com as pessoas que consideramos difíceis. (Fotografei em Rio Preto – MG).

Essa foi a pergunta de uma participante da conversa após a palestra “Nas trilhas da vida”.

– Ah, é a pessoa que não escuta seu ponto de vista, afirma o tempo todo que ela é quem está certa e os outros estão errados e aí a conversa não evolui.

– A pessoa que você acha difícil também pode achar você difícil, não é?

– Sim, claro. Ela pode achar que você é o cabeça-dura, que não cede aos argumentos que ela apresenta e se recusa a concordar com seus pontos de vista.

É o circuito da interação que torna as conversas difíceis. “O que eu faço influencia o que você faz e vice-versa”. A pessoa considerada difícil em um relacionamento pode ser vista como acessível em outro. “Quando eu conheci a ex-mulher do meu atual marido ela me avisou para tomar cuidado porque ele tinha um gênio horrível. Estamos juntos há dez anos e temos uma convivência ótima” – comentou uma participante.

“Já passei por períodos difíceis com meu filho e minha nora. Aí resolvi viver a minha vida e deixá-los viver a deles. Como adultos, eles são responsáveis pelas escolhas que fazem, mesmo que eu não concorde com algumas delas. Agora só dou minha opinião quando me pedem. E passamos a conversar sobre outras coisas, o que ficou muito melhor” – comentou outra.

“Meu filho é muito fechado, é difícil conversar com ele, nunca sei o que ele está realmente pensando ou sentindo. Mas, com a namorada, ele se abre!”. Quando perguntei como ela costuma abrir a conversa, disse que faz muitas perguntas para “tentar extrair dele alguma coisa”. No entanto, isso cria um clima de inquérito, que provavelmente o faz se sentir invadido, e, então, se fecha para se proteger. Como tentar outras possibilidades de conversa? O que pode observar sobre o modo como a namorada do filho descobre as vias de acesso?

Reavaliar nossa contribuição para as “conversas difíceis” é um bom instrumento para inspirar mudanças no circuito interativo. As pessoas que consideramos difíceis podem nos dar oportunidades de abrir novos caminhos de comunicação. Não adianta ficar esmurrando a parede, com queixas, reclamações e recriminações. “As pessoas difíceis são nossas professoras” – comentou um participante. Da mesma forma, problemas são oportunidades de criar recursos para agir e encontrar soluções. “Por isso, sou grata às dificuldades que encontro em minha vida, elas me fazem amadurecer” – disse outra participante, com mais de 80 anos.

Há alguns anos, fiz um curso na Universidade de Harvard: Como lidar com conversas difíceis. A curiosidade para entender como o outro vê o problema, a habilidade para perceber os sentimentos subjacentes e a disposição para criar uma “terceira história” a partir do entendimento recíproco foram alguns dos tópicos abordados. O livro escrito pelos três professores já está disponível no Brasil: Conversas difíceis, de Douglas Stone, Bruce Patton e Sheila Heen, da Elsevier Editora. Recomendo!

Nossa casa comum

203

Entrar em comunhão com a natureza é reverenciar sua beleza, como na Capela de Mármore que fotografei na Patagônia Chilena.

A Semana do Meio Ambiente pode nos inspirar boas reflexões sobre nossa responsabilidade coletiva. “O urgente desafio de proteger a nossa casa comum inclui a preocupação de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral”  – escreve o Papa Francisco em sua encíclica Laudato Sí, escrita em 2015. Ele recomenda que nosso contato com a natureza seja por meio da admiração e do encanto, para vivenciar a experiência de união com tudo o que existe para fortalecer a sobriedade e a solicitude. Como tudo está interligado, ”exige-se uma preocupação pelo meio ambiente, unida ao amor sincero pelos seres humanos e a um compromisso constante com os problemas da sociedade”.  E afirma que é preciso “revigorar a consciência de que somos uma única família humana. Não há fronteiras nem barreiras políticas ou sociais que permitam isolar-nos e, por isso mesmo, também não há espaço para a globalização da indiferença”.

A estreita relação entre pobreza e fragilidade do meio ambiente é claramente expressa nesse texto, quando faz a ligação entre a degradação ambiental e a degradação humana e ética. Isso dá margem ao “convite a procurar outras maneiras de entender a economia e o progresso, o valor próprio de cada criatura, o sentido humano da ecologia, a necessidade de debates sinceros e honestos, a grave responsabilidade da política internacional e local, a cultura do descarte e a proposta de um novo estilo de vida”.

A busca da coerência é essencial: “Não pode ser autêntico um sentimento de união íntima com os outros seres da natureza, se ao mesmo tempo não houver no coração ternura, compaixão e preocupação pelos seres humanos. É evidente a incoerência de quem luta contra o tráfico de animais em risco de extinção, mas fica completamente indiferente perante o tráfico de pessoas, desinteressa-se dos pobres ou procura destruir outro ser humano de que não gosta”. Vivemos em um mundo onde “o imenso crescimento tecnológico não foi acompanhado por um desenvolvimento do ser humano quanto à responsabilidade, aos valores, à consciência”.

O Papa Francisco enfatiza que não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social. Há “uma única e complexa crise socioambiental. As diretrizes para a solução requerem uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza”. Isso conduz a uma redefinição do que é o progresso: “um desenvolvimento tecnológico e econômico, que não deixa um mundo melhor e uma qualidade de vida integralmente superior, não se pode considerar progresso”.

Para ler o texto na íntegra:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html