Alimentação e nutrição afetiva

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Cuidar bem de nós mesmos inclui a escolha de alimentos saudáveis.(Fotografei em uma feira em Londres)

Ingerir alimentos tem vários significados emocionais, enraizados na própria dinâmica familiar.

Assim que nasce, o bebê precisa respirar e sugar o alimento oferecido (pelo seio materno ou pela mamadeira) para viver, ao contrário do que acontecia no mundo intrauterino, onde tudo lhe era fornecido sem seu esforço. Então, a alimentação, nos seus primórdios, acontece no contexto do vínculo afetivo, faz parte da tecelagem do amor.

O bebê vai crescendo e revelando disposição para experimentar novos sabores e texturas, ou recusando essa abertura para as novidades. É importante a “leitura” que a família faz sobre as necessidades da criancinha, que precisa não só de comida, mas também de carinho, atenção, aconchego, estimulação sensorial, brincadeiras. Quando os sinais que emite são “lidos” como fome, receberá mais alimento do que precisa e isso constrói a noção de que comer serve para acalmar, distrair, aliviar frustrações, suprir carinho e atenção, preencher buracos afetivos. Muitas crianças crescem comendo compulsivamente, com dificuldades de desenvolver a autorregulação.

Comer demais ou de menos também é estratégia de poder: a criança escraviza a família impondo seus desejos e os adultos se submetem para aplacar os ataques de raiva e de birra. Há aquelas que quase nada comem em casa, mas na escola ou na casa de amigos comem de tudo. Portanto, no processo de aprender a cuidar bem de si mesmo, a nutrição consciente está sujeita aos fatores inconscientes e às estratégias de poder.

Crianças e adolescentes são influenciados pelos hábitos alimentares da família, dos amigos e do contexto social (incluindo a propaganda). Quase sempre, nas famílias de crianças obesas, muitos adultos estão acima do peso. Querem controlar o que a criança ingere, mas eles mesmos comem além da conta. São mensagens contraditórias.

Com ritmo de trabalho intenso, há adultos que argumentam que é mais prático comprar lanches empacotados, sem pensar no alto teor de açúcar e gorduras e no baixo valor nutritivo. A publicidade voltada para as crianças vistas como consumidores estimula a pressão que estas passam a exercer na família, que sente dificuldades em dizer “não” aos insistentes pedidos para comprar o que é anunciado e o que os colegas compram na cantina da escola.

A parceria entre a família e a escola pode resultar em mudanças que favorecem a boa nutrição, oferecendo a possibilidade de nutrição saudável. Pequenas e progressivas mudanças no cotidiano da família (horários de refeição em conjunto, sem “telas”, conversas e tempo reservado para atividades de interesse coletivo) para criar tempo de convívio podem intensificar a nutrição afetiva, para que a comida não precise preencher outras lacunas. E leis apropriadas para coibir abusos da publicidade infantil, ao lado de um trabalho de visão crítica sobre o poder de manipulação da publicidade, que cria necessidades que não precisariam existir, são outros recursos para abrir bons caminhos para a nutrição de boa qualidade.

Os primeiros 1000 dias

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É preciso cuidar da vida desde seu início, para que possa florescer (Fotografei no Jardim Botânico, RJ).

Os primeiros 1000 dias de vida, contados a partir da concepção, são considerados como uma janela de oportunidades para otimizar o desenvolvimento das crianças. As pesquisas, em número crescente em diversos países, mostram os efeitos dos cuidados adequados no decorrer de toda a vida. Em alguns países, isso tem aumentado o interesse em implementar políticas públicas para cuidar bem da alimentação e do bem-estar das gestantes e das mães de crianças pequenas, assim como oferecer educação de boa qualidade nos primeiros anos de vida.

É essencial combater a desnutrição nos primeiros 1000 dias para assegurar um melhor nível de saúde da população no longo prazo, uma vez que a subnutrição na gestação aumenta o índice de mortalidade na primeira infância e acarreta déficits cognitivos, além de problemas crônicos de saúde no decorrer da vida. A Pastoral da Criança, ONG que conta com mais de duzentos mil agentes de saúde que atuam em comunidades em todo o Brasil, lançou, em 2015, a campanha “Toda gestação dura mil dias”, enfatizando a prioridade da atenção no período da gestação até os seis anos de vida.

Mas é preciso também combater a “desnutrição emocional”, com ações que priorizem a boa formação do vínculo afetivo entre a família e o bebê desde a gestação. A neurociência mostra, com clareza cada vez maior, que a qualidade dos vínculos influi na arquitetura cerebral. O Center on the Developing Child, da Universidade de Harvard sintetiza, em seus relatórios, centenas de estudos que mostram a importância do vínculo entre a família e o novo ser.

Os estudos de vários economistas, como, por exemplo, James Heckman (prêmio Nobel de Economia em 2000), mostram que é muito mais vantajoso, inclusive do ponto de vista econômico e social, investir em programas de boa qualidade para famílias com bebês e crianças pequenas do que tentar remediar problemas em outras etapas do desenvolvimento.

Portanto, investir nessa janela de oportunidades dos 1000 dias é uma estratégia eficiente para consolidar a saúde global e o desenvolvimento no longo prazo.

Mas o que fazer com os 50 milhões de crianças (pelo cálculo mais recente da UNICEF) afastadas de seus lares, fugindo do terror da guerra, de diversas formas de violência e de perseguição por grupos criminosos? A agência da ONU destaca que há muitas crianças refugiadas, em comparação com outras faixas etárias: são quase a metade, embora sejam cerca de um terço da população mundial. Gestações que acontecem mesclando esperança com desespero, que repercussões terão com tão pouco acolhimento e assistência? Os seres que estão sendo gestados e estão vivendo seus primeiros anos precisam ser prioridade na agenda mundial.

Apego, desapego, amparo, desamparo

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Os compradores compulsivos se enchem de coisas desnecessárias, e não se desapegam dos itens que acumulam. (Fotografei em Bruxelas)

O ser humano nasce desamparado, dependente, incapaz de sobreviver se não tiver alguém que cuide dele. Pouco a pouco, desenvolve autonomia: para isso, é necessário amparar os primeiros passos, mas também deixar a criancinha cair e aprender a se levantar sozinha. Na nutrição do vínculo, é sutil o equilíbrio entre o apego que fortalece a sensação de estar amparado e sendo amado e o desprendimento que evita a superproteção, a dependência excessiva e simbiótica.

O apego a bens materiais é a vã tentativa de suprir um vácuo na relação do amparo primordial, que transmite segurança e forma a base da autoestima e da autoconfiança. Todos nós precisamos do olhar do outro para nos sentirmos aceitos e reconhecidos.

Os compradores compulsivos se enchem de coisas desnecessárias, e não se desapegam dos itens que acumulam. Rodeados de objetos, criam a ilusão de completude, de que nada lhes falta. Porém, de nada podem abrir mão porque “um dia, posso precisar dessas coisas”.

Para combater o consumismo, muitos estão promovendo “sessões de desapego”, doando ou trocando objetos e expandindo a noção de que temos uma infinidade de coisas de que, na verdade, não precisamos.

Escolher o que é realmente essencial e o que é dispensável pode inspirar ações como a de Margot, que acumulou centenas de objetos que adquiriu em suas inúmeras viagens ao redor do mundo, além dos presentes que ganhou dos amigos. Para comemorar seus 70 anos, arrumou a maioria desses objetos em uma grande mesa, convidou os amigos e disse que poderiam levar com eles o que quisessem. Preferiu guardar as lembranças somente na memória.

Cultivar relações significativas de amor e de amizade é vital para a construção do bem-estar que nos possibilita enfrentar situações difíceis e celebrar a vida em suas diversas etapas. O abraço do aconchego, que ampara, conforta, acolhe nos momentos difíceis e nos inunda de alegria nos bons momentos de encontro.

Mas há quem cultive o desapego nos relacionamentos, pelo medo de amar e de ser abandonado, de precisar do outro e não poder contar com ele. E então se refugia na crença de que não precisa de ninguém.

E, para alguns, o mais difícil é se desapegar de ideias, de símbolos de status, do poder conferido pelo cargo que ocupam.

Separação e novos amores na maturidade

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Na travessia do tempo, determinação e coragem para desbravar caminhos.(Fotografei no Museu de Arte Naif, em Zagreb, Croácia).

Esse foi o tema do debate em um programa de rádio do qual participei. Com um número crescente de pessoas vivendo mais tempo e com melhor qualidade de vida, há oportunidade de fazer novos projetos, expandir interesses, mudar de profissão, fazer novas amizades e iniciar relacionamentos amorosos após a separação ou a viuvez. Quando um ciclo termina, outro começa. Afinal, o amor é eterno, mas os amados podem mudar…

Não é fácil fazer a travessia das perdas, mas elas são inevitáveis na vida de todos nós. Vida que segue. O tempo necessário para digerir perdas importantes é muito variável. Porém, quando a separação resulta em descrença da possibilidade de ser feliz com outra pessoa torna-se ainda mais difícil abrir o coração. Isso acontece quando nos deixamos tomar pelas lembranças amargas da desilusão e da decepção. Reconhecer que, apesar das dificuldades que surgiram e resultaram na separação, essa relação teve bons aspectos e “deu certo por um certo tempo”.

Amores e desamores fazem parte da nossa história e contribuíram para o que somos hoje. Apesar de ser mais fácil acusar o outro e responsabilizá-lo pelos problemas, reconhecer o que fizemos nos aspectos bons e ruins do relacionamento que terminou é essencial para nosso desenvolvimento pessoal.

O preconceito social contra o envelhecimento, juntamente com a excessiva valorização do corpo jovem, faz com que muitas pessoas (sobretudo as mulheres) se sintam invisíveis (“Ninguém mais olha para mim”). Isso inibe e desencoraja possíveis aproximações. No entanto, amar  é possível em qualquer idade – rugas e pele flácida não impedem a atração e o desejo para os que ousam perceber a beleza essencial.

A sexualidade madura pode ser ainda mais prazerosa do que na juventude quando nos libertamos da tirania do desempenho (a “transa como deve ser”) e da vergonha do corpo “imperfeito”. Isso possibilita um autoconhecimento mais refinado dos próprios caminhos do prazer e a percepção mais acurada do corpo sensível da pessoa amada. Quando atingimos essa etapa, descobrimos que a pele de todo o corpo é uma grande zona erógena que pode revelar novos matizes do prazer pela exploração da sensualidade e do erotismo, com criatividade, ternura e capacidade de brincar.

Transformando famílias

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Aproveitar as oportunidades que surgem abrem trilhas interessantes no caminho da vida. (Fotografei em Itamonte, MG)

“Eu estava muito preocupada com meu filho. Ele não tinha sonhos, não sabia o que queria da vida. Depois que entrou para a aula de vôlei na Cruzada conseguiu ser federado e leva a sério sua preparação. Diz que atleta não tem férias, que precisa cuidar da alimentação. Agora eu o vejo feliz, com objetivos, dedicado ao esporte. O desempenho na escola melhorou muito. O pai, que era muito ausente, agora participa mais da vida da família”. O jovem, de 13 anos, acrescenta: “Agora eu tenho um foco. Mesmo nas fraquezas, levanto a cabeça e sigo em frente, mesmo perdendo, mantenho o sorriso”.

“Minha filha, com 12 anos, passou a ter mais responsabilidade com os horários, tem disciplina. Estava muito ociosa, agora faz aulas de vôlei, judô, capoeira, hip-hop e cuida da roupa do esporte. Aliás, eu também entrei nessa dança e já perdi cinco quilos, estou mais animada. Além disso, com a ajuda da equipe, voltei ao mercado de trabalho. Fiz um curso de culinária e passei a fazer bolos, doces e salgados para vender. Consegui conciliar o tempo de cuidar da família e produzir”.

“Os professores da creche educam os pais na relação com os filhos” – disse a mãe de um menino de dois anos. “Confesso que eu sofria agressões do meu marido, e isso acabou depois que passamos a frequentar as reuniões de família. Fiz amizade com muitas mães, trocamos ideias, comemoramos aniversários juntas. A gente que mora em comunidades vê muitos pais que não cuidam dos filhos, vale a pena se acostumar com coisas boas”.

Da mãe de uma menina de quatro anos, que nasceu com síndrome de Down: “Parei de trabalhar para cuidar da minha filha, mas vi que ela precisava de outros cuidados. A creche acolheu nossa família com carinho e minha filha está se desenvolvendo muito bem, está mais sociável, desenvolveu a fala e a motricidade. Comecei a desenvolver grupos de apoio a famílias que passam por essa situação e transmitir informações para quem tem preconceitos de se aproximar de crianças como ela”.

Ao final da reunião do Conselho Consultivo da ONG Cruzada, da qual faço parte, algumas mães e alunos que frequentam a creche e os projetos do Plantando o Amanhã falaram sobre o impacto desse trabalho em suas famílias. Com o propósito de educar para transformar, a Cruzada estimula a participação das famílias e o desenvolvimento das competências de todos.

“Trabalhar é a maior felicidade”!

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A conversa com a artesã Edite, que fotografei na Chapada Diamantina (BA) foi uma lição de vida.

Foi assim que Edite, 74 anos, respondeu à primeira pergunta da pesquisa que estou fazendo sobre a construção da felicidade. Ela é artesã e mora em Lençóis, na Chapada Diamantina (BA). Trança palha, faz crochê, costura, faz bordado, fuxico, cerâmica. Trabalha na roça, também. “Só paro de trabalhar quando estou dormindo, comendo e no banheiro, cantando. Gosto de trabalhar desde que tinha uns três anos. A gente morava em fazenda, e eu ia com meu pai para o curral ajudar a tirar leite das vacas e também para a roça, para ajudar a plantar e a colher. Ele dizia para minha mãe deixar eu ajudar porque eu gostava de fazer isso. Com minha mãe, eu ia para a lagoa lavar roupa. Eles não trabalhavam sábado e domingo, então eu brincava com bonecas, arrumava a casa delas, convidava outras crianças para brincar comigo. E foi aí que aprendi a cozinhar, costurar, bordar”.

Aprendeu com o pai que o melhor é dormir e acordar cedo, além de descansar depois do almoço para “respeitar o corpo”. Diz que trabalho é remédio: quando sente qualquer mal-estar começa a trabalhar e tudo passa. “Tive 17 filhos mas só criei nove, os outros morreram pequenos. Naquela época, o que a gente mais via era caixão de anjo, muitos morriam novinhos, não tinha remédios nem médicos, como tem agora. Meus nove filhos dizem que se sentem felizes porque nunca me viram em uma cama de hospital”.

Diz que já explicou a mais de mil pessoas que lhe perguntam o que ela faz para viver sorrindo que o importante é trabalhar, que é isso que faz bem para a saúde. “Quem se concentra no trabalho não pensa nos problemas. Quem se preocupa muito adoece e isso não adianta nada, porque o que tem que ser já nasce assim e o que não tem que ser não é”. Às vezes fica preocupada com os três filhos que trabalham como caminhoneiros, mas pensa que Deus não vai deixar que nada de ruim aconteça e, então, a preocupação acaba. Não fica triste porque tem muito a agradecer à vida.

Faz projetos de vida a longo prazo: comprou uma terra e está organizando um sítio, plantando frutas e legumes para se alimentar bem. “Não é porque eu estou com 74 anos que vou deixar de fazer planos para o futuro”.

Edite é uma pessoa resiliente. Intuitivamente, pratica o que a neurociência ensina a respeito da neuroplasticidade autodirigida e a ciência da felicidade aponta sobre a importância da gratidão e da renovação de projetos de vida.

Nas teias dos relacionamentos

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Que teias tecemos em nossos relacionamentos no decorrer da vida? (Tela de Hiroshige, que fotografei em uma exposição em Paris).

O grupo que conversou comigo sobre esse tema teceu muitos comentários sobre a teia da mágoa. A pessoa que nos magoa atinge nossas áreas mais vulneráveis “Eu me afasto da pessoa que me magoou” – disse uma participante. Porém, com isso, deixa de aproveitar bons aspectos desse relacionamento.

“Às vezes, a pessoa nem sabe que me magoou, eu simplesmente desapareço” – complementou. Desse modo, perde a oportunidade de propor uma conversa esclarecedora, que poderia restaurar o bom relacionamento. Vale pensar sobre o que podemos aprimorar em nossa expressão de sentimentos e na clareza da comunicação.

Como podemos nos libertar da teia da mágoa? Algumas ideias foram discutidas, entre as quais a importância de entender melhor a pessoa que nos magoou.  “Percebo que, quando consigo fazer isso até penso que talvez eu até fizesse o mesmo que o outro fez” – disse uma participante. E outro agregou: “Vivi muitos anos magoado com meus pais. Eu me sentia injustiçado, por perceber que eles mimavam meu irmão. Quando fiquei mais maduro, vi o quanto eu contribuía para que meus pais não me oferecessem tantos privilégios, porque eu era muito rebelde e grosseiro com eles”.

Aprofundar o autoconhecimento contribui para dissolver a mágoa: O que aconteceu para isso me atingir desse modo? Por que estou dando tanta importância para essa pessoa a ponto de permitir que ela me magoe tanto?

Há outras teias que nos aprisionam, como o ciúme que nasce do medo da perda e gera a necessidade de tudo controlar. E a da inveja, que paralisa nosso crescimento pessoal, consumindo energia em ver apenas o que o outro conquistou e o que nos falta. Com isso, muitos deixam de batalhar pelas próprias conquistas. Essas teias de relacionamento são tóxicas, fazem mal à nossa saúde física e mental.

Felizmente, há teias que nos trazem alegria e dão sustentação em momentos difíceis, como as da amizade, da solidariedade e do amor. Essa tecelagem, feita na base do respeito, da compreensão e da aceitação das diferenças, beneficia o crescimento de todos.