Dicas para aliviar a carga mental

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“Meu marido adora convidar nossos amigos para um churrasco, que ele prepara muito bem, e é muito elogiado por todos. Mas sou eu quem organizo tudo, chamo as pessoas, arrumo a casa, providencio um monte de coisas, que ninguém percebe e, claro, ninguém me elogia!” Esse é o desabafo de uma participante de um estudo na Espanha que revela que 3 em cada 4 mulheres sofrem com essa carga mental, o trabalho invisível e não valorizado do gerenciamento doméstico: planejar, executar, tomar conta da agenda dos filhos, da agenda social do casal e mil outros detalhes, além dos afazeres “concretos” (colocar roupa para lavar, cozinhar, limpar a casa).

No entanto, 40% das mulheres desse estudo nem conheciam esse conceito. A psicóloga espanhola Violeta Alcocer supervisionou uma pesquisa em que vários casais foram convidados a anotar em seus celulares todas as tarefas e compromissos domésticos que realizaram em uma semana. Embora quase todos acreditassem que compartilhavam as tarefas, o que ficou evidente foi que a lista de compromissos das mulheres era incrivelmente maior do que a dos homens.

A “executiva do lar” em ação está alicerçada na crença secular de que isso é uma função “natural” da mulher. É ela quem cuida de tudo e de todos. Muitas mulheres idosas verbalizam o temor de ser um peso na vida dos filhos, por exemplo. Acostumadas a cuidar, sentem dificuldade de receber cuidados.

Em uma transmissão ao vivo que fiz sobre esse tema, muitos comentários interessantes: “Ele é o pai, mas o filho é meu!”, “a gente é bombardeada por cobranças de todos os lados”; “minha própria mãe me critica quando vê meu marido cozinhando”; “meu marido reclama que tudo tem que ser do meu jeito, o que ele faz não serve”; “não preciso de ninguém, eu me basto!”; “meu filho de 24 anos mora comigo, e não colabora com coisa alguma, eu faço tudo, embora trabalhe oito horas por dia”.

Cobranças externas e internas, sentimento de culpa, superexigência de achar que tem que dar conta de tudo, desprezando a parceria, sem aceitar que os outros podem fazer as coisas com seu jeito próprio, tendência centralizadora, possessividade com relação aos filhos. São muitas formas de construir sobrecarga, e o resultado é exaustão, irritabilidade, adoecimento.

Como aliviar a carga mental?

  • Compartilhar afazeres, fazer o compromisso da co-responsabilidade – quando o relacionamento está consolidado em bases desiguais, não dá para mudar o padrão da noite para o dia mas é possível conversar a respeito e trabalhar a partir do compromisso de fazer mudanças mínimas e progressivas até atingir um patamar mais igualitário;
  • Criar tempo para descarregar tensões – cantar, dançar, caminhar, meditar ou, pelo menos, prestar atenção à respiração por alguns minutos sempre que possível;
  • Perceber a beleza – deixar-se encantar e apreciar a natureza para “recarregar as baterias”;
  • Microautocuidados – “o que de melhor posso fazer por mim hoje?”: prestar atenção ao que come, fazer uma massagem na sola dos pés após o banho, descobrir o que pode deixar de fazer (revisão da superexigência e da cobrança) e muitas outras coisas que nos fazem bem.

Links para o estudo citado:

https://www.youtube.com/watch?v=4mukTQTUitk

https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/01/politica/1551460732_315309.html

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Você sabe o que é agilidade emocional?

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É preciso desenvolver flexibilidade de pensamentos e sentimentos para reagir da melhor forma possível ao que a vida nos apresenta. Para isso, apesar das tensões, pressões e exigências da vida complexa e de mudanças rápidas que caracterizam o século XXI, precisamos aprender a relaxar e a encontrar o propósito de estarmos nesse mundo, nesse momento.

Com isso, fortalecemos a resiliência para enfrentar desafios e dificuldades, entendendo que tudo isso faz parte do “pacote” de existir. E decidir seguir em frente mesmo quando sofremos decepções e desilusões significativas.

Mas, antes de “seguir em frente”, é preciso ”olhar de frente” sem negar ou minimizar as dificuldades e o que sentimos diante das situações. Fragilidade, raiva, insegurança, medo do fracasso e da rejeição coexistem com nossa força, coragem e esperança. Aprender a “surfar nas ondas” dos sentimentos, em vez de combatê-los ou criticá-los é um modo eficaz de desenvolver autoconhecimento e autocompaixão. Nosso lado sombrio faz parte do “pacote” de nossa humanidade. Olhar tudo isso de frente, com curiosidade, em vez de negar ou combater, liberta e transforma. Não há mudança possível sem reconhecimento e aceitação do nosso “eu inteiro”.

Os sentimentos são o que são e se transformam uns nos outros no fluxo da vida. Não podemos “escolher” sentir isso ou aquilo, mas podemos decidir o que faremos a partir do que sentimos. E também aprofundar o autoexame para entender as “camadas” dos sentimentos. Por exemplo, sob muitos ataques de raiva, encontramos tristeza e frustração. Sob manifestações de ciúme e possessividade, encontramos medo de perda, insegurança. Crie o hábito de perguntar a si mesmo: “O que esse sentimento está querendo me dizer?”

Por isso, para que nossos filhos e netos desenvolvam agilidade emocional desde cedo, é importante reconhecer, nomear, aceitar e entender o que está sendo sentido para que percebam que não é necessário reprimir sentimentos, embora, muitas vezes, seja preciso refrear algumas ações (“estou sentindo raiva, mas não vou bater na minha irmãzinha”). E aprender a lidar com frustrações, estresse, desconforto – as “dores do crescimento”.

Podemos ainda escolher como olhar para a situação difícil: se a vemos como um problema insolúvel, intensificamos o medo e nos paralisamos; se a vemos como uma oportunidade, ficaremos mais flexíveis para buscar recursos, encarar o desafio e aceitar que os erros fazem parte da aprendizagem de viver. Agilidade emocional é aprender a surfar nas ondas da vida, ajustar as lentes para buscar o melhor ângulo do olhar e se considerar como uma “obra em progresso”, como agente da própria transformação e do próprio crescimento.

No decorrer da vida, fazemos planos, estabelecemos metas, determinamos onde queremos chegar. Alguns desses planos se concretizam, outros não. Novas metas, novos planos, lucidez para decidir o quanto ainda vale a pena insistir (em um campo de trabalho, ou em um relacionamento amoroso) e quando é para decretar “fim de ciclo” e sair. A agilidade emocional nos permite pesar melhor os prós e os contras para tomar a melhor decisão e seguir novos rumos que legitimamente desejamos. Com coragem e determinação.

Nas palavras de Susan David, cujo livro “Agilidade emocional” (ed. Cultrix, 2016) inspirou esse texto:

“Coragem não é ausência de medo. Coragem é caminhar no medo”.

“ A beleza da vida é inseparável da sua fragilidade. Somos jovens até que deixamos de ser. Somos saudáveis até que deixamos de ser. Estamos com aqueles que amamos até deixarmos de estar.”

Relacionamento abusivo entre crianças

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De uma mãe preocupada: “Percebo que minha filha de oito anos está estressada com uma amiga da escola que não a deixa em paz: não quer que ela converse com outras meninas, liga várias vezes por dia, ameaça de acabar com a amizade se ela lhe desobedecer. Minha filha gosta dessa menina, mas não gosto de vê-la se submetendo a essas exigências. Não sei bem o que fazer, dá vontade de interferir, mas não sei como”.

O comportamento de possessividade, ciúme, desejo de exclusividade acontece basicamente por insegurança e medo de perda de quem age assim, e se expressa por mensagens de ameaça e intimidação. A pessoa que se deixa intimidar (criança, adolescente ou adulto) também sente medo da perda, de ser atacada e prejudicada de algum modo. E, muitas vezes, não consegue se desvencilhar desse relacionamento ou colocar os limites apropriados.

Ações de bullying, com seu típico padrão de repetição e desigualdade de poder, constroem relações abusivas. Envolvem não só agressões físicas mas também agressões verbais, intimidação, chantagem, ameaças. Essas ações às vezes acontecem de forma velada (não somente na sala de aula mas também no pátio, no banheiro, no transporte escolar), a ponto de não serem percebidas pela equipe escolar. E a criança atingida, com pavor de que a situação possa piorar se falar sobre isso com alguém, muitas vezes pensa que não há saída a não ser sofrer em silêncio.

Como todos nós – crianças, adolescentes e adultos – temos forças e fragilidades é importante reconhecer nossos “pontos fracos” e fortalecer a resiliência para lidar com situações difíceis sem se deixar abater por elas, cultivando a autoproteção para detectar sinais de condutas abusivas, assertividade para colocar os limites devidos (“eu vou, sim, continuar a falar com outras meninas, você não pode mandar em mim”) ou se afastar da pessoa que se comporta de modo indevido.

É claro que os relacionamentos abusivos entre crianças precisam da intervenção de adultos, tanto na família quanto na escola, por meio de recursos para modificar as interações nessas redes de relacionamentos. Por isso, os programas de prevenção ao bullying abrangem ações de sensibilização de toda a equipe escolar e das famílias, assim como o trabalho com alunos que praticam, sofrem e presenciam esses comportamentos abusivos. Os que presenciam, quando bem conscientizados, promovem uma efetiva rede de inibição desses comportamentos, mostrando que a popularidade e a liderança devem ser desenvolvidas por outros meios que não a intimidação e a dominação.

Com crianças e adolescentes enredados em relacionamentos abusivos, as perguntas reflexivas são recursos para estimular outros tipos de ação. Por exemplo: “Que outras crianças podem ser suas amigas sem querer mandar tanto em você?”  (reduzir o poder da criança “mandona” ampliando o círculo de amizades). Fortalecer a criança para perceber e reagir com assertividade aos sinais de relacionamentos abusivos contribuirá para, poucos anos mais tarde, ela se posicionar diante de exigências abusivas de ciúme e possessividade, disfarçadas de zelo e proteção ( “Eu disse a ele que vou continuar usando as roupas que eu quiser e sem essa de eu dar as senhas das minhas redes sociais”).

É preciso liberar o poder masculino de cuidar!

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Essa é uma das ideias centrais do Relatório do estado da paternidade no mundo (2019), organizado pela ONG Promundo que lidera a campanha MenCare, , cujo objetivo é promover o desenvolvimento de meninos e homens como cuidadores, estimular o envolvimento ativo com a paternidade positiva, a prevenção da violência e o cuidado com a saúde da família, para atingir uma equidade completa entre homens e mulheres na casa e no trabalho. Selecionei os trechos que considerei mais importantes:

  • No mundo, as mulheres ainda gastam até dez vezes mais tempo do que os homens no trabalho doméstico não remunerado. Embora muitos homens estejam participando mais nos cuidados com a casa e com a família, em 23 países a diferença do tempo gasto nessas tarefas por homens e mulheres diminuiu somente sete minutos por dia no decorrer de 15 anos. Apenas 48% dos países dão licença-paternidade remunerada, que varia entre três semanas e apenas alguns dias. E, mesmo assim, ainda é pequena a proporção de homens que pegam essa licença.

Relato de um pai chinês: “A licença-paternidade é necessária. Percebi isso pela minha própria experiência: ao estar presente no nascimento de meu filho senti a grandeza das mães e isso desenvolveu meu senso de responsabilidade”.

  • Em todo o mundo ainda predomina a ideia de que cuidar da casa e da família é tarefa da mulher e o homem provedor pode se isentar de participar desses cuidados. As mulheres ainda são consideradas cuidadoras “naturais”. É preciso mudar essa ideia urgentemente, para alcançar a equidade entre homens e mulheres.  O trabalho não remunerado de cuidar inclui as tarefas da casa (lavar, passar, cozinhar, limpar), assim como cuidar de membros da família (crianças, idosos, pessoas com necessidades especiais).

Relato de uma mulher do Nepal: “Quando meu marido me ajuda a lavar a louça, até minha sogra o critica. Outras pessoas também me depreciam por isso. Os homens que querem ajudar ficam com medo de serem ridicularizados pela comunidade”.

  • O maior envolvimento dos homens nas tarefas cotidianas beneficia todos, inclusive a saúde das mulheres. Melhora a relação entre o casal e reduz a incidência de violência intrafamiliar. O envolvimento do pai traz benefícios para o desenvolvimento de meninas e meninos. Para os homens, há melhoras na saúde física, mental e sexual. Em sete países, 85% dos homens disseram que fariam qualquer coisa para conseguirem cuidar mais de seus filhos, biológicos ou adotivos, nas primeiras semanas e meses de vida.

 

  • Essa grande mudança precisa encontrar respaldo nas políticas públicas, no gerenciamento das empresas e no ativismo da sociedade, para liberar o grande poder do cuidado masculino e terminar com a desigualdade do tempo dedicado ao trabalho doméstico não remunerado. A educação de meninos e meninas precisa transmitir o valor da capacidade de cuidar. As empresas precisam criar um ambiente de trabalho que apoia o envolvimento no cuidado tanto para homens quanto para mulheres. ONGs, influenciadores da mídia e a imprensa precisam apoiar campanhas que valorizem a capacidade masculina de cuidar. É um trabalho a ser feito pela sociedade como um todo.

 

  • É preciso haver um esforço coletivo para estimular os homens a assumirem 50% da tarefa de cuidar da casa e da família. Abandonar a ideia do homem que “ajuda” para marcar a importância de compartilhar o cuidado igualmente. Por isso, os homens precisam ser incluídos nos grupos de trabalho com bebês e crianças pequenas para promover autoconfiança e desenvolvimento de habilidades. O ato de cuidar é muito importante e, por isso, é preciso liberar o poder masculino de cuidar.

 

  • Líderes religiosos e comunitários podem desempenhar um importante papel para promover a equidade de gênero e a prevenção da violência, atuando como modelos de referência para muitos homens. Os profissionais de saúde precisam incluir ativamente os homens na assistência à mulher e à criança em suas rotinas de atendimento, por exemplo, nas consultas de pré-natal. Os educadores podem sensibilizar as crianças desde cedo para o poder de cuidar e de desenvolver empatia, como no programa Raízes da Empatia, que envolve a observação de bebês e sua interação com a família. A mídia pode veicular matérias mostrando homens sendo cuidadores competentes.

 

  • A desigualdade na distribuição do tempo para as tarefas domésticas começa na infância: as meninas se envolvem cerca de 40% a mais do que os meninos, o que as deixa com menos tempo para estudo e lazer. De uma menina colombiana: “Lá em casa, eu tenho que varrer a casa, lavar a louça e as roupas do meu irmão. Ele pode aprender a fazer isso também”!

 

  • Até agora, nenhum país atingiu completamente a equidade em termos do trabalho não remunerado de cuidar, assim como na equiparação de salários pelo mesmo trabalho, de homens e mulheres. Da mesma forma, nenhum país colocou como meta que homens e meninos façam 50% do trabalho não remunerado de cuidar. O trabalho não remunerado de cuidar é extremamente importante e o fato de que são as mulheres e as meninas que fazem a maior parte desse trabalho está na raiz da falta de equidade de gênero, pois dificulta que as mulheres estejam em pé de igualdade no mercado de trabalho.

Para ler o Relatório completo: Van der Gaag, N., Heilman, B., Gupta, T., Nembhard, C., and Barker, G. (2019). State of the World’s Fathers: Unlocking the Power of Men’s Care. Washington, DC: Promundo-US.

Há também o link de acesso: https://s30818.pcdn.co/wp-content/uploads/2019/05/BLS19063_PRO_SOWF_REPORT_015.pdf

Você vive na prisão das expectativas?

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“Percebi que vivi muito tempo da minha vida tentando preencher as expectativas dos outros. Consegui aprender a dizer Não e isso é libertador!”; “Como descobrir se uma expectativa é genuína ou imposta pela sociedade?”

Foram muitas perguntas e comentários sobre o que fazer com nossas expectativas, na Live que fiz com Josie Conti. O autoconhecimento, um processo que jamais termina porque somos todos uma “obra em progresso”, é a chave para conseguir diferenciar entre o que é nosso legítimo desejo (de ter ou não ter filhos, de escolher uma determinada profissão, de casar ou continuar na solteirice) e a “obrigação” de preencher expectativas dos outros (pais, amigos, a própria sociedade).

As expectativas impostas são um fardo pesado. Quando nos submetemos a elas tentando agradar os outros para sermos amados e reconhecidos não conseguimos nos sentir felizes, porque estamos traindo a nós mesmos. Por exemplo, quantas mulheres legitimamente não desejam ter filhos mas acabam engravidando porque são pressionadas pela crença de que a mulher só se realiza pela maternidade, pelo desejo do companheiro ou de sua própria mãe que quer ser avó?  Quantos jovens entram na universidade para preencher expectativas da família para que escolham uma determinada profissão que não corresponde ao seu legítimo desejo?

“Vivi 25 anos com o pai dos meus filhos, mas não me sentia feliz, estávamos juntos por causa das crianças, até que não aguentei mais e me separei”. Não é fácil romper essas amarras e gritar (sobretudo para si própria) “Não é isso o que eu quero”! A expectativa familiar/social de que o casamento deve durar “até que a morte vos separe”, a crença de que filhos de pais separados ficam traumatizados ou a ameaça de que é “ruim com ele, pior sem ele” dificultam um exame mais aprofundado da relação para chegar à conclusão de que está no fim do ciclo e que o melhor a fazer é se separar, para cada um seguir seu caminho, dissolvendo a relação conjugal e cuidando o melhor possível da relação parental.

É libertador desprender-se dessas expectativas para escolher o que realmente faz sentido para nós, mesmo que seja completamente fora do convencional.

“Estou há trinta anos em um relacionamento e é um ideal frustrado”; “Esperamos de uma pessoa algo que ela não pode nos dar”; “Paixão é tentar materializar em alguém nossas fantasias e depois descobrir que não era nada daquilo”; ”Esperamos o que jamais existiu”.  O que acontece é que às vezes nos aprisionamos tanto em nossas próprias expectativas que sobra pouco espaço para descobrir coisas boas e reais na outra pessoa. Para passar da paixão ou de um ideal fantasiado para o amor é preciso descobrir e gostar das semelhanças e das diferenças, da complementariedade que desenvolve o respeito e a aceitação das características de cada um.

“Sempre tendemos a colocar a felicidade em um ponto futuro”. Ao criar a expectativa intensa de alcançar o que ainda não temos,  não prestamos a devida atenção ao presente do presente, que é o que realmente temos. A felicidade está nos pequenos milagres do cotidiano, na capacidade de saborear os bons momentos e de cultivar a gratidão por tudo que chega até nós, inclusive os problemas, que nos permitem criar recursos para enfrentá-los.

Libere sua criatividade superando o medo!

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A zona de conforto é bem desconfortável! Foi o comentário de uma pessoa que assistiu à transmissão ao vivo sobre esse tema.  Sim, há muita gente que se obriga a permanecer em relações insatisfatórias, permanece em um trabalho frustrante, encolhe seu espaço vital porque o medo de sair de onde está é maior do que o desconforto. Pensamentos dominantes: Isso não vai dar certo, ruim com ele pior sem ele, não vou ser capaz de viver de outro modo.

Como psicoterapeuta, observo o conflito entre o desejo e o medo da mudança. Não é só o medo de que o território desconhecido seja pior do que o conhecido insatisfatório. É que mudar dá trabalho. Romper padrões estabelecidos para criar outras possibilidades, aventurar-se, correr riscos, expor-se às críticas, ao fracasso.

Fracasso, o que é isso?

O personagem Lewis, do filme A Família do Futuro é um menino inventor e, por isso, muitas de suas tentativas não dão certo. Ao constatar que mais um de seus aparelhos falhou ele, mortificado, pede desculpas e se surpreende ao ouvir: “Você fracassou! Sensacional! Maravilha! É fracassando que a gente aprende, com o sucesso a gente não aprende nada! Não desista, siga em frente!”

Pense nos inventores que conseguiram criar objetos revolucionários, como o automóvel, a lâmpada elétrica, o telefone, e milhões de outras coisas. Quantas tentativas e erros foram necessários até chegar ao produto final?

Para acertar é preciso errar e lidar com a frustração de não saber. Aprender a lidar com essa frustração fortalece a persistência para não desistir facilmente diante dos obstáculos. Isso também ajuda a valorizar o erro como fonte de aprendizagem, e não como uma ameaça à autoconfiança.

É preciso construir autoconfiança na própria capacidade de encarar desafios e propor coisas novas. Criar é ousar, apresentar algo inusitado. Pode ser uma receita nova, um livro, uma modalidade de trabalho. É arriscar-se, expor-se a ver que não deu certo como imaginávamos. Superar o medo da opinião dos outros, de ficar isolado se for muito diferente dos demais.

A criatividade dá cor e sabor à vida. Podemos desenvolver a criatividade nos relacionamentos para revitalizar o dia a dia, evitando o tédio e a acomodação do “mais do mesmo”. Arriscar-se a amar sem o medo de não dar certo ou de ressuscitar dores passadas. A vida é movimento e o fluxo de mudanças é inevitável, mesmo quando resistimos a isso. Conheço pessoas com medo de envelhecer (e de morrer, é claro) que fazem tudo para fingir que são jovens (esforço inútil e desnecessário), gastando muita energia nessa ilusão. Em contraposição, também conheço pessoas idosas que renovam seus projetos de vida, permanecem abertas à aprendizagem, ousam criar e vivem a plenitude de seus muitos anos.

Ô mãe, ô pai! O casal parental soterrou o homem e a mulher?

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Quantos casais passam a se chamar assim depois que os filhos nascem? Isso, na maioria das vezes, significa que a função de cuidar dos filhos passou a ser a prioridade número um, e a curtição do casal ficou em segundo (ou em terceiro) plano. A boa notícia é que isso não precisa acontecer! O desejo sexual não termina com a idade madura, desde que a nutrição do vínculo amoroso seja mantida.

Para início de conversa, por que isso acontece? As raízes da dissociação entre maternidade e sexualidade são milenares. Há dois arquétipos de figuras femininas que atuam no inconsciente coletivo: Eva e Maria. A primeira, a mulher que teve filhos mas é descrita como erotizada, sensual, pecadora, finalmente expulsa do Paraíso. A segunda, que “concebeu sem pecar” foi mãe sem fazer sexo.

Tradicionalmente, e isso acontece ainda com muitos homens, as mulheres são divididas entre “as para casar e ter filhos” e “as outras” (com quem podem desfrutar de diversas práticas sexuais). Além disso, o “corpo ideal” é o corpo magro, e, com isso, um grande número de mulheres sente dificuldade de conviver bem com seus corpos reais, tão diferentes das “blogueiras fitness” ou de outros ícones de beleza com suas fotos devidamente retocadas.

Com as mudanças do corpo grávido, muitas mulheres se sentem pouco atraentes, com o aumento do peso, do ventre, dos seios. Por outro lado, há as que se sentem plenas e poderosas, gestando uma vida em seu ventre, sensuais, erotizadas, integrando a mulher-fêmea com a mulher-mãe. E os homens, como olham para a mulher grávida? Muitos passam a tratá-la como “a mãe”, pela qual não sentem mais desejo e evitam o contato sexual. “Na medida em que minha barriga crescia, ele só me abraçava por trás, e não queria mais transar, dizendo que sentia medo de machucar o bebê com a penetração” – lamentou uma mulher no grupo de gestantes.

Porém, há homens que enxergam a companheira grávida como sensual e atraente, mantendo o desejo. Aproveitam as mudanças do corpo, especialmente no final da gravidez ou quando acontecem problemas que contraindicam a penetração, como oportunidades de desenvolver a criatividade para elaborar novas formas de fazer amor, expandindo a sensualidade e o erotismo, que poderão inspirá-los pela vida afora.

A família precisa fazer grandes adaptações para atender as necessidades do recém-nascido. Nas primeiras semanas após o parto, tradicionalmente chamado de “resguardo”, há profundas mudanças físicas e emocionais, em que o desejo sexual não fica em primeiro plano. Os primeiros passos para conhecer o bebê real, que pode ser bem diferente do bebê sonhado, domina o cenário. As adaptações e os ajustes são ainda maiores quando nascem gêmeos, bebês com questões especiais ou que precisam de internação em uma UTI Neonatal. O casal precisa nutrir o amor com carinho, colaboração, cumplicidade e contar com uma rede de apoio.

A natureza não dissocia maternidade e sexualidade: a ocitocina é um hormônio atuante nas contrações do trabalho de parto, na involução uterina pós-parto, na amamentação e no orgasmo feminino. Por isso, quando a mulher está amamentando é comum sair leite quando ela goza na transa sexual. Há homens que se constrangem com isso, pois dissociam o seio erótico do seio que nutre. Mas a natureza integra!

Com o passar do tempo, os filhos crescem, mas alguns pais conservam ações que se tornaram desnecessárias. Por exemplo, permitir que crianças maiores durmam na cama com os pais, ou manter a porta do quarto aberta “porque elas podem precisar de alguma coisa”. Como fica a intimidade do casal? Sim, há famílias que não dispõem de espaço físico para isso. E aí a criatividade precisa entrar em ação, juntamente com a nutrição do amor com companheirismo, gentileza, admiração, sedução.  Caso contrário, é grande o risco de cair na “burocracia doméstica” e na acomodação repetitiva (“é sempre do mesmo jeito”), em que a sexualidade e o erotismo ficam soterrados pela sobrecarga de trabalho e de cuidados com os filhos. Sobretudo, quando vem junto com cobranças, queixas e reclamações constantes. Isso mata o tesão!

Isso acontece em todos os tipos de organização familiar: mães solo que não contam com rede de apoio e precisam trabalhar ficam sobrecarregadas para cuidar de tudo, e algumas “arquivam” seu desejo sexual e a busca de parceria amorosa. Outras criam uma comunidade de mães solo que se revezam para cuidar dos filhos das outras, de modo que cada uma tenha um tempo reservado para ser mulher e não somente mãe. Nas “famílias-mosaico” com filhos moradores e visitantes, além dos ex-cônjuges, a nutrição amorosa do casal (hétero ou homoafetivo) é um desafio especial. “Combinados” para compartilhar os afazeres domésticos entre todos os que estão na casa é um modo de evitar a sobrecarga e a exaustão que atrapalham o encontro amoroso.