Arquivo mensal: novembro 2014

Os preconceitos nos aprisionam!

Paisagem árida, que fotografei no deserto de Atacama, no Chile.

Paisagem árida, que fotografei no deserto de Atacama, no Chile.

– Paulinho, quero te apresentar uma amiga minha que se separou! Uma mulher maravilhosa, inteligente, simpática, gosta das mesmas coisas que você, e até o signo combina!

– Qual a idade, Cíntia?

– Só quer saber isso, cara? Bem, como nada é perfeito, eu digo: tem 48, mas é bonitona, um mulherão! Falei de você, ela ficou muito interessada em te conhecer!

– Não precisa nem se dar ao trabalho de me apresentar…

– Paulo, você já está com 63! Qual o problema de conhecer uma mulher de 48?

– Cíntia, se você é minha amiga de verdade não deveria dizer a minha idade nem pra mim mesmo!

– Tudo bem, se você prefere cultivar preconceito até com você mesmo, só lamento…Tô indo!

Na Teia dos preconceitos é um dos textos que eu enceno em Teias. Quando abro a conversa com a plateia após a apresentação, o tema do preconceito se destaca. No decorrer da vida, internalizamos grande parte dos preconceitos que vigoram na sociedade e, muitas vezes, os reproduzimos até mesmo sem percebê-los.

“É uma ótima pessoa, apesar de ser negro!” – revela o racismo de quem jura não ser preconceituoso. “Ele disse que quer me namorar, mas é quinze anos mais novo… Seria ridículo, não acha?” – diz a mulher cujo preconceito censura seu desejo.

Quando a sociedade evolui no sentido de conviver melhor com as diferenças, os episódios de discriminação se atenuam. Há algumas décadas, filhos de “desquitadas” não eram aceitos em colégios tradicionais e eram impedidos de brincar com crianças de “lares bem constituídos”. Quando se tornou evidente que é possível construir lares harmônicos ou desarmônicos em qualquer tipo de família, o convívio entre crianças de diferentes composições familiares fez com que muitas escolas substituíssem o “Dia das Mães” e o “Dia dos Pais” pela comemoração do “Dia da Família”.

Com isso, as novas gerações passam a perceber que o essencial é o compromisso de amar e de cuidar. Com isso, as crianças podem se desenvolver bem em famílias com pais casados, separados, que nunca se casaram, que abrigam três gerações na mesma casa, que incluem filhos de diferentes uniões, que adotam bebês, crianças maiores ou adolescentes.

O processo de superar preconceitos é longo e difícil. Nem mesmo as mudanças da legislação refreiam totalmente os episódios de discriminação e os crimes, como acontece com o racismo e a homofobia. Ataques de ódio pelas redes sociais, agressões físicas e assassinatos ainda acontecem em proporções alarmantes, tendo como alvos preferenciais as pessoas negras e as que se envolvem em relações homoafetivas. Exclusão e humilhação ferem a autoestima dos que não se encaixam nos rígidos padrões do que é considerado aceitável, porque “já passou da idade”, tem nariz muito grande ou está acima do peso ideal. Os preconceitos que internalizamos deformam nosso olhar, restringem nosso espaço vital, e geram uma crescente aridez emocional.

Os preconceitos nos aprisionam

Limitam muito as nossas escolhas

E nos impedem de aproveitar

Os presentes que a vida nos traz

 

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Desejos fugazes

"Borboleteando": lembrei dessa foto que tirei em um museu na Suíça.

“Borboleteando”: lembrei dessa foto que tirei em um museu na Suíça.

Diogo, Renata e Isa me contaram que a “contabilidade” do fim de semana foi alta: beijaram mais de meia dúzia na festa, foi uma “pegação geral”. Os contatos feitos e descartados velozmente abortam repetidamente embriões de relacionamentos.

Quando ouço homens e mulheres de todas as idades se queixando da frustração decorrente do vazio e da transitoriedade desses (des)encontros, penso no quanto a liberação sexual resulta em repressão da afetividade, empobrecendo o desejo e gerando uma grande insatisfação.

O fantástico crescimento das vendas de fórmulas afrodisíacas, de brinquedos eróticos e de medicamentos para a disfunção erétil pode ser visto como sintoma da dificuldade de encontrar antigos caminhos que integram afeto e desejo. Em todos os tempos, o melhor afrodisíaco é abrir o coração!

Gosto de reler autores que aprecio. Um deles é Machado de Assis, que capta tão bem as sutilezas emocionais dos personagens, os conflitos de relacionamento e, sobretudo, a nutrição do desejo. A atração que se acende quando o olhar descobre a alvura do braço da mulher, ou seu tornozelo subitamente revelado por um movimento indiscreto do vestido longo. O desejo que se incendeia por um toque breve e furtivo, pela troca discreta de olhares, por um bilhete enviado por um criado. Naquele tempo, o namoro das moças de família era estritamente vigiado e o desejo crescia e se nutria nos subterrâneos da imaginação, da fantasia, da transgressão cuidadosamente ocultada.

Ao reler o clássico “As mil e uma noites”, fiquei novamente encantada pela magia das histórias envolventes de Cheherazade. O sultão Chahriar mandava matar todas as moças que ele desvirginava na primeira e única noite que passava com elas (os contatos apagados no smartphone logo após a primeira transa?). Mas Cheherazade encantou o sultão contando histórias de modo envolvente, misterioso, empolgante, nutrindo o desejo. Após mil e uma noites, o sultão, inteiramente apaixonado por ela, desistiu de matá-la.

O comportamento de jogar fora as pessoas sem dedicar algum tempo para conhecê-las é um aspecto da cultura do consumismo que nos induz a procurar incessantemente as novidades do mercado. No livro “Amor líquido” o sociólogo Zygmunt Bauman examina as características da “modernidade líquida” e seus efeitos nocivos sobre a capacidade de amar. Para ele, os consumidores de hoje compram por impulso, nem se dão ao trabalho de alimentar o desejo, uma vez que esse processo depende de tempo e paciência, coisas que não combinam com a cultura da satisfação imediata. Muitos estão fazendo o mesmo com os relacionamentos rapidamente consumidos e descartados: começam e terminam no impulso, sem tempo de nutrir o desejo e desenvolver o amor.

Diz Bauman: “Afinal, automóveis, computadores ou telefones celulares perfeitamente usáveis, em bom estado e em condições de funcionamento satisfatório são considerados, sem remorso, como um monte de lixo no instante em que novas e aperfeiçoadas versões aparecem nas lojas e se tornam o assunto do momento. Alguma razão para que as parcerias sejam consideradas uma exceção à regra?”

E a magia, o mistério, a arte da sedução, o fascínio de conhecer melhor a outra pessoa? A sutileza dos olhares, os matizes do toque, o fazer-se envolvente sem medo de se deixar envolver? Quem ousa descobrir o privilégio de um encontro mais profundo sabe que isso não saiu de moda, nem ficou perdido no tempo…

A força do desejo

A força da água em uma bela cachoeira que fotografei no interior de SP.

A força da água em uma bela cachoeira que fotografei no interior de SP.

A conversa com um grupo de amigos desenvolveu boas reflexões sobre o desejo. É o alicerce da motivação, que nos permite persistir mesmo quando há grandes obstáculos a serem superados. Está na base do planejamento, que nos permite descobrir caminhos e executar as ações que podem nos conduzir à realização do que queremos, em vez de ficarmos apenas sonhando com o que gostaríamos que acontecesse. O desejo que alimenta a esperança de criar ou descobrir algo novo motiva inventores e cientistas a enfrentar a frustração de inúmeras tentativas mal sucedidas.

Nos primeiros anos de vida, quando ainda não se iniciou a construção da noção de futuro, a força do desejo é imperiosa. A criancinha chora, se joga no chão e se enfurece quando é contrariada. Ainda precisa aprender a esperar e a tolerar frustrações, adiando a realização do desejo ou o substituindo por outro que seja mais viável no momento.

No decorrer do crescimento, tratamos de conseguir acolher nossos desejos, mas sem nos deixarmos dominar por eles, como acontece nas compulsões. Por outro lado, os que se queixam da falta de desejo não conseguem se entusiasmar por coisa alguma e ficam desmotivados para construir projetos de vida. Apatia e desânimo predominam, como acontece nos quadros depressivos.

A força do desejo pode ser tão intensa a ponto de produzir alterações corporais. No início da década de 1970, eu atuava como voluntária na Enfermaria de Obstetrícia de um hospital público. Presenciei alguns casos de pseudociese que me impressionaram: o intenso desejo de ser mãe “criava” um corpo grávido, mesmo sem feto no útero.

Os que acreditam no poder do “mau-olhado” temem ser prejudicados pela força do desejo motivado por inveja ou vingança de seus desafetos, e se protegem com amuletos para neutralizar as energias negativas.

E temos ainda a poderosa corrente subterrânea dos desejos inconscientes. Obedecemos aos seus ditames sem sequer percebê-los e apenas dizemos “não sei o que me levou a fazer isso”…

A construção da (in)felicidade

Fim de tarde em um igarapé, que fotografei na floresta amazônica.

Fim de tarde em um igarapé, que fotografei na floresta amazônica.

– Meu fim de semana foi horrível! – queixa-se Amanda.

– O que aconteceu? – pergunto para a menina, que acabou de completar dez anos.

– Ah, no sábado, fui para a casa de uma amiga, aí fomos tomar banho de piscina no clube e fizemos guerra de travesseiros na hora de dormir. No dia seguinte, meus pais me pegaram lá e fomos para a praia, almoçamos numa churrascaria mas, à noite, eu pedi para eles me levarem na minha lanchonete preferida, eles disseram que estavam cansados e ficamos em casa. Eu tenho os piores pais do mundo! – choramingou Amanda.

As pessoas felizes valorizam o que está ao seu alcance; as infelizes lamentam o que falta. Para onde dirigimos nosso olhar? Conseguimos reconhecer e agradecer o que recebemos? Ou deixamos que a revolta e a insatisfação tomem conta de nós, como acontece com Amanda, que olha a frustração com lentes de aumento e desqualifica os momentos prazerosos?

Todos os dias acontecem muitas coisas em nossas vidas. Somos nós que selecionamos o que vamos olhar prioritariamente. Com isso, modelamos nossa realidade. Quando mudamos a maneira de olhar, mudamos a maneira de sentir e de agir. Daí, temos o poder de construir felicidade ou insatisfação crônica.

E isso não depende de situação econômica. Lembro-me da visita a uma comunidade ribeirinha no interior da Amazônia, em que as pessoas, muito pobres, se reuniam todos os sábados em um centro comunitário para conversar, cantar, dançar. Conversei com algumas, que me disseram que se sentiam felizes, apesar de viverem com pouquíssimo dinheiro.

Muitos dizem que serão felizes quando conseguirem comprar um apartamento ou um carro. Quando essa meta é atingida, colocam outra e continuam adiando a felicidade. Quando condicionamos a construção da felicidade a padrões externos de sucesso ou à aquisição de bens materiais, corremos o risco de esperar alcançar mais e mais. E esquecemos que os momentos felizes dependem da nossa escolha de olhar para a grandeza das pequenas coisas, de apreciar a beleza de uma paisagem, de aproveitar o encontro com pessoas de quem gostamos, de agradecer os presentes que a vida nos traz.

Histórias do medo

A história do mergulho fascinante em Pedras Secas, Fernando de Noronha.

A história do mergulho fascinante em Pedras Secas, Fernando de Noronha.

Comumente, pensamos no medo como algo a ser enfrentado e superado. Muitos consideram que sentir medo é sinal de fraqueza.

Mas o medo pode enriquecer nossa imaginação, quando pensamos em meios de sair de uma situação assustadora ou de evitar as que são realmente perigosas. Karen Thompson Walker, na palestra TED com o tema “O que podemos aprender com o medo?” compara o processo de sentir medo com a criação de ficção. O medo inspira histórias com princípio, meio e fim, roteiros de suspense ou de terror: como terminam essas cenas que o medo nos faz imaginar? O medo nos estimula a criar histórias. Portanto, podemos pensar nos enredos inspirados pelo medo como histórias, de nossa própria autoria.

Em vez de evitar ou superar o medo, podemos procurar entendê-lo mais a fundo, examinar os cenários propostos, imaginar recursos para sair das dificuldades e estratégias de autoproteção.

Há tempos, fiz um curso de mergulho em Fernando de Noronha. Consegui fazer alguns mergulhos com tranquilidade, mas entrei em pânico em Pedras Secas, lugar de mar aberto, “sonho de consumo” dos mergulhadores por ser incrivelmente bonito e porque, para os barcos, é difícil conseguir autorização para chegar lá.

Foi um prêmio do qual não consegui desfrutar: condições de mergulho mais difíceis, maior profundidade, entrou água no respirador, eu me apavorei e esqueci como efetuar o procedimento simples e eficaz. Fiz sinal para o guia pedindo para subir. Na superfície, o mar estava agitado, e eu não consegui inflar o colete (outro procedimento elementar). Engoli água, achei que ia morrer afogada. O barco custou a chegar, o guia tentando me acalmar, eu apavorada. Subi frustrada, principalmente depois que os outros mergulhadores descreveram o cenário deslumbrante. Não consegui me recompor para o segundo mergulho do dia, em águas calmas.

O medo me inspirou muitas histórias, predominaram as de final trágico, que inibiram os recursos que o medo protetor me sinalizou.

Alguns anos depois, com um histórico de outros mergulhos bem aproveitados, voltei a Fernando de Noronha. Dois dias de “snorkel” em Baía dos Porcos e no Sueste, vendo lagostas, tartarugas, peixes e corais. No terceiro dia, agendei uma saída com dois mergulhos de cilindro. Nunca se sabe de antemão onde serão, depende das condições climáticas. Assim que entrei no barco, encontrei a equipe eufórica: os dois pontos de mergulho seriam em Pedras Secas!

Gelei: as imagens anteriores voltaram. O medo imediatamente me inspirou histórias trágicas. Falei com o grupo sobre meu trauma. Um “anjo da guarda” prometeu cuidar de mim para que eu pudesse aproveitar os mergulhos. Desci junto com ele. A água estava azul-anil, límpida, com ondas grandes. Consegui pensar em histórias com final feliz, aproveitando a inspiração do medo protetor, embora as histórias de terror também estivessem presentes.

Comecei a descida: ao avistar o primeiro cardume, as imagens do mergulho traumático voltaram. Fiquei angustiada, a respiração acelerou, mas com a ajuda do colega, consegui me acalmar e  aproveitar a beleza. As histórias de encantamento tomaram a dianteira.

Foram dois mergulhos inesquecíveis: admirei os arcos de calcário, belas esculturas submarinas, cavernas, jardins de algas, corais e peixes multicoloridos, tartarugas e um pequeno tubarão. Um cenário surreal, onírico. Emergi profundamente emocionada, as imagens da beleza mais fortes do que as histórias de terror inspiradas pelo medo. São essas imagens que agora habitam minhas lembranças de Pedras Secas.

https://www.ted.com/talks/karen_thompson_walker_what_fear_can_teach_us/transcript?language=en#t-118593