Arquivo mensal: dezembro 2016

Famílias possíveis

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Para onde nos levarão os caminhos que escolhemos seguir? (Fotografei em Jericoacoara, CE).

“Quando o Natal está próximo, fico triste. Lembro da minha infância, a família grande reunida, a mesa farta, a casa enfeitada com uma grande árvore com bolas e luzes coloridas, as caixas de presentes, o presépio montado. Minha mãe sempre tomava a iniciativa de coordenar as festas. Depois que ela morreu, acabou. Cada um fica no seu canto, ninguém se encontra mais” – desabafa Vânia, separada com dois filhos que passam o Natal com o pai e o Ano Novo com ela.

Raramente alguém vive, na prática, o seu ideal de família, sobretudo quando essa imagem é muito próxima da perfeição e, por isso, muito longe da realidade. Família são laços de amor, acolhimento, bons cuidados, intimidade, mas esses laços também incluem desentendimentos, raiva, mágoa, distanciamento e confusão. Cada um de nós tem uma família possível. Quando aproveitamos da melhor forma nossa “família possível” conseguimos desfrutá-la de acordo com suas características. E até mesmo criar alternativas viáveis para substituir o que gostaríamos que fosse mas que não dá para ser. Algumas possibilidades:

  • Uma celebração de “pré-natal” quando, no dia oficial, há compromissos com outros núcleos familiares;
  • Crianças e adolescentes que se sentem amados e bem cuidados por pessoas que não pertencem à família biológica e com elas constroem vínculos socioafetivos;
  • Definir como família os laços em que predomina o compromisso de amar e de cuidar, nas mais diversas composições fora do convencional;
  • Perceber que, apesar da distância geográfica, é possível buscar a proximidade da conversa e a consistência do cuidado (filhos e netos que moram em outras cidades ou países, por exemplo);
  • Tentar transformar mágoas e ressentimentos em compreensão para que, mesmo após o término do casamento, seja possível construir uma relação pelo menos razoável como pai e mãe (para não permanecerem casados pelo ódio).
  • Mesmo quando o relacionamento está esgarçado ou rompido, pode-se tentar restaurá-lo em algum nível.

Entre o ideal e o real existe o possível. Vale a pena tentar fortalecer a esperança e ampliar a capacidade de amar!

Treine sua mente, mude seu cérebro!

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Esse objeto me fez pensar como é importante cuidar bem da delicada rede neuronal do nosso cérebro.

“O cérebro está sempre em mutação, a maior parte do tempo sem nossa participação consciente”. “O bem-estar é uma habilidade que pode ser cultivada” – Essas frases me chamaram a atenção quando assisti palestras de Richard Davidson, psicólogo e neurocientista, que comanda um laboratório de pesquisas na Universidade de Wisconsin.

A construção do bem-estar se fundamenta em alguns pilares:

  • Neuroplasticidade – Podemos modelar nosso cérebro para cultivar o bem-estar, podemos meditar para, voluntariamente desenvolver a compaixão. Nossos pensamentos, experiências e relacionamentos fazem e refazem os circuitos neuronais.
  • Epigenética – Como os genes se expressam, ligam ou desligam sob a influência das experiências de vida e dos relacionamentos. Cada gene tem uma espécie de controle de volume que pode ser mudado e regulado por nossas experiências. Temos predisposições genéticas, mas a meditação, por exemplo, pode modular a expressão dos genes.
  • Há uma via de mão dupla entre cérebro e corpo – mudanças em um causam impacto no outro. É possível cultivar o bem-estar praticando atividades físicas e focalizando as emoções positivas.
  • Expandir a generosidade, fortalecer a resiliência (a rapidez com que nos recuperamos das adversidades, cultivando emoções positivas), aprimorar o foco da atenção para estar integralmente no momento presente são outros elementos fundamentais para a construção do bem-estar.

No laboratório, cuja equipe é liderada por Davidson, o estudo da atividade cerebral de monges tibetanos com mais de dez mil horas de prática de meditação revelou circuitos cerebrais ativados pela compaixão, especialmente a ínsula e a amígdala. Descobriu-se também uma forte conexão entre o cérebro e o coração, quando a compaixão é desenvolvida. E tudo isso está ligado à construção do bem-estar.

Em outro experimento, sujeitos não praticantes tiveram duas semanas de treinamento em meditação, durante meia hora por dia, e viram que, mesmo com tão pouco tempo de prática, ocorriam mudanças no cérebro. Esses e outros estudos mostram a importância de trabalhar nossa mente positivamente para promover a saúde física e mental.