Arquivo mensal: setembro 2016

Alimentação e nutrição afetiva

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Cuidar bem de nós mesmos inclui a escolha de alimentos saudáveis.(Fotografei em uma feira em Londres)

Ingerir alimentos tem vários significados emocionais, enraizados na própria dinâmica familiar.

Assim que nasce, o bebê precisa respirar e sugar o alimento oferecido (pelo seio materno ou pela mamadeira) para viver, ao contrário do que acontecia no mundo intrauterino, onde tudo lhe era fornecido sem seu esforço. Então, a alimentação, nos seus primórdios, acontece no contexto do vínculo afetivo, faz parte da tecelagem do amor.

O bebê vai crescendo e revelando disposição para experimentar novos sabores e texturas, ou recusando essa abertura para as novidades. É importante a “leitura” que a família faz sobre as necessidades da criancinha, que precisa não só de comida, mas também de carinho, atenção, aconchego, estimulação sensorial, brincadeiras. Quando os sinais que emite são “lidos” como fome, receberá mais alimento do que precisa e isso constrói a noção de que comer serve para acalmar, distrair, aliviar frustrações, suprir carinho e atenção, preencher buracos afetivos. Muitas crianças crescem comendo compulsivamente, com dificuldades de desenvolver a autorregulação.

Comer demais ou de menos também é estratégia de poder: a criança escraviza a família impondo seus desejos e os adultos se submetem para aplacar os ataques de raiva e de birra. Há aquelas que quase nada comem em casa, mas na escola ou na casa de amigos comem de tudo. Portanto, no processo de aprender a cuidar bem de si mesmo, a nutrição consciente está sujeita aos fatores inconscientes e às estratégias de poder.

Crianças e adolescentes são influenciados pelos hábitos alimentares da família, dos amigos e do contexto social (incluindo a propaganda). Quase sempre, nas famílias de crianças obesas, muitos adultos estão acima do peso. Querem controlar o que a criança ingere, mas eles mesmos comem além da conta. São mensagens contraditórias.

Com ritmo de trabalho intenso, há adultos que argumentam que é mais prático comprar lanches empacotados, sem pensar no alto teor de açúcar e gorduras e no baixo valor nutritivo. A publicidade voltada para as crianças vistas como consumidores estimula a pressão que estas passam a exercer na família, que sente dificuldades em dizer “não” aos insistentes pedidos para comprar o que é anunciado e o que os colegas compram na cantina da escola.

A parceria entre a família e a escola pode resultar em mudanças que favorecem a boa nutrição, oferecendo a possibilidade de nutrição saudável. Pequenas e progressivas mudanças no cotidiano da família (horários de refeição em conjunto, sem “telas”, conversas e tempo reservado para atividades de interesse coletivo) para criar tempo de convívio podem intensificar a nutrição afetiva, para que a comida não precise preencher outras lacunas. E leis apropriadas para coibir abusos da publicidade infantil, ao lado de um trabalho de visão crítica sobre o poder de manipulação da publicidade, que cria necessidades que não precisariam existir, são outros recursos para abrir bons caminhos para a nutrição de boa qualidade.

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Os primeiros 1000 dias

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É preciso cuidar da vida desde seu início, para que possa florescer (Fotografei no Jardim Botânico, RJ).

Os primeiros 1000 dias de vida, contados a partir da concepção, são considerados como uma janela de oportunidades para otimizar o desenvolvimento das crianças. As pesquisas, em número crescente em diversos países, mostram os efeitos dos cuidados adequados no decorrer de toda a vida. Em alguns países, isso tem aumentado o interesse em implementar políticas públicas para cuidar bem da alimentação e do bem-estar das gestantes e das mães de crianças pequenas, assim como oferecer educação de boa qualidade nos primeiros anos de vida.

É essencial combater a desnutrição nos primeiros 1000 dias para assegurar um melhor nível de saúde da população no longo prazo, uma vez que a subnutrição na gestação aumenta o índice de mortalidade na primeira infância e acarreta déficits cognitivos, além de problemas crônicos de saúde no decorrer da vida. A Pastoral da Criança, ONG que conta com mais de duzentos mil agentes de saúde que atuam em comunidades em todo o Brasil, lançou, em 2015, a campanha “Toda gestação dura mil dias”, enfatizando a prioridade da atenção no período da gestação até os seis anos de vida.

Mas é preciso também combater a “desnutrição emocional”, com ações que priorizem a boa formação do vínculo afetivo entre a família e o bebê desde a gestação. A neurociência mostra, com clareza cada vez maior, que a qualidade dos vínculos influi na arquitetura cerebral. O Center on the Developing Child, da Universidade de Harvard sintetiza, em seus relatórios, centenas de estudos que mostram a importância do vínculo entre a família e o novo ser.

Os estudos de vários economistas, como, por exemplo, James Heckman (prêmio Nobel de Economia em 2000), mostram que é muito mais vantajoso, inclusive do ponto de vista econômico e social, investir em programas de boa qualidade para famílias com bebês e crianças pequenas do que tentar remediar problemas em outras etapas do desenvolvimento.

Portanto, investir nessa janela de oportunidades dos 1000 dias é uma estratégia eficiente para consolidar a saúde global e o desenvolvimento no longo prazo.

Mas o que fazer com os 50 milhões de crianças (pelo cálculo mais recente da UNICEF) afastadas de seus lares, fugindo do terror da guerra, de diversas formas de violência e de perseguição por grupos criminosos? A agência da ONU destaca que há muitas crianças refugiadas, em comparação com outras faixas etárias: são quase a metade, embora sejam cerca de um terço da população mundial. Gestações que acontecem mesclando esperança com desespero, que repercussões terão com tão pouco acolhimento e assistência? Os seres que estão sendo gestados e estão vivendo seus primeiros anos precisam ser prioridade na agenda mundial.