Arquivo mensal: abril 2015

“Você não manda em mim”!

Quando contemplei essa escultura natural em uma gruta da Sardenha, pensei na paciência e persistência necessárias para educar filhos.

Quando contemplei essa escultura natural em uma gruta da Sardenha, pensei na paciência e persistência necessárias para educar filhos.

“Mando, sim, porque sou sua mãe”! E a dupla empaca no circuito resistência da criança/insistência da mãe em se fazer obedecer.

Em famílias com casais em novas uniões, “você não manda em mim” é uma frase dita com frequência quando o companheiro/a do genitor/a tenta colaborar para melhorar a qualidade dos relacionamentos no dia a dia. Mesmo sem serem pais e mães, essas pessoas acabam exercendo a função parental.

“Adoraria não precisar mandar você fazer o que precisa ser feito, mas você me convida a ser chata”! – retruca Marisa, tentando estimular o filho a sair fora desse circuito e aprender a mandar em si mesmo.

Na aprendizagem da autorregulação, crianças e adolescentes aprendem, gradualmente, a buscar o equilíbrio entre deveres e prazeres e a tomar a iniciativa de cumprir suas obrigações sem precisar de um comando externo. Mas nem sempre isso acontece…

– “E o que eu faço com meu filho de 22 anos que acabou sendo reprovado em duas matérias por faltas, porque tem preguiça de acordar cedo para ir à faculdade”? “Não sei mais o que dizer para minha filha que, em vez de estudar, fica o dia inteiro nas redes sociais! E já está com 19 anos”!

Ouço esse tipo de comentários com frequência. Quando examino mais a fundo os circuitos interativos, comumente vejo que esses jovens adultos recebem benefícios sem contrapartidas. Se ficam reprovados, os pais tornam a pagar a mensalidade no ano seguinte. O dinheiro para o lazer continua garantido. Ou seja, não sofrem consequências para seus atos. Não precisam se esforçar…

Há alguns anos, trabalhei como voluntária em um curso de capacitação para o primeiro emprego para adolescentes que viviam em comunidades de baixa renda. Recebiam ofertas de estágio das empresas parceiras do projeto. Muitos deles não conseguiam completar o tempo previsto nas empresas porque se recusavam a fazer as tarefas propostas ou as realizavam de modo insatisfatório, apenas quando estavam sendo vigiados e cobrados.

Em conversas com gerentes de diferentes empresas, ouço muitas queixas da má qualidade dos serviços oferecidos. Funcionários adultos que precisam ser comandados continuamente, com a tendência a manter o desempenho no mínimo indispensável. “Parece até que não precisam de ganhar dinheiro para pagar as contas”! – comentou um gerente. Poucos se esforçam para mostrar o melhor desempenho possível.

Vivemos mergulhados em um mundo de ofertas de entretenimento. Não é fácil a tarefa de educar os filhos para o autogerenciamento!

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Desenvolvendo a empatia

Quando mergulhei na Grande Barreira de Coral, na Austrália, vi muitos seres diferentes compartilhando o mesmo espaço.

Quando mergulhei na Grande Barreira de Coral, na Austrália, vi muitos seres diferentes compartilhando o mesmo espaço.

A habilidade de compreender o que o outro sente imaginando-se em seu lugar pode começar a ser desenvolvida nos primeiros anos de vida.

No início da década de 1990, pesquisadores de neurociência descobriram os “neurônios-espelho”, a base neurofisiológica da empatia. Eles já são atuantes no cérebro das crianças pequenas e podemos estimular seu potencial cultivando a gentileza e a percepção do outro a partir dos 18 meses de idade. “Seu amigo vai ficar contente se você der a ele um biscoito” ou, ao contrário, “seu amigo ficou chateado porque você bateu nele, peça desculpas”.

Embora a criança pequena ainda se veja como centro do mundo e queira que tudo gire em torno dos seus desejos, começa a desenvolver a capacidade de ver que os outros também existem com seus próprios desejos e necessidades que precisarão ser levados em consideração.

O desenvolvimento da empatia e o respeito pelas diferenças marcam a transição do “eu” para o “nós” e são alicerces fundamentais da capacidade de resolver conflitos de modo justo e equilibrado.

Para viver em um mundo de diferenças onde tudo e todos estão interconectados, a empatia será cada vez mais indispensável. Caso contrário, veremos o aumento da intolerância, do preconceito e de ações de discriminação.

Carl Rogers, que idealizou a “terapia centrada na pessoa” falava da importância de psicoterapeutas e educadores desenvolverem a compreensão empática, que permite o mergulho na subjetividade do outro, para perceber como ele vê o mundo. Quando interagimos com alguém que nos compreende com empatia, nos sentimos acolhidos e respeitados.

A escuta atenta e sensível do ponto de vista do outro é um requisito essencial para o exercício da empatia. Essa qualidade de escuta e a habilidade de expressar com clareza nosso próprio ponto de vista podem ser desenvolvidas no decorrer da vida e são os principais recursos para a solução de conflitos. Com isso, conseguimos perceber os pontos em comum mesmo quando há grandes divergências e construir a base para os acordos de bom convívio.

Nada dá certo em minha vida!

É preciso paciência, persistência e preparo para realizar uma obra como essa, que fotografei no Rubin Museum of Arts, em NY.

É preciso paciência, persistência e preparo para realizar uma obra como essa, que fotografei no Rubin Museum of Arts, em NY.

– Infelizmente, meu casamento não deu certo… Acabamos de nos separar, depois de sete anos juntos – lamenta Adriana, com a voz embargada.

O que deu certo, no decorrer desses sete anos? Passaram um tempo apaixonados, decidiram viver juntos, compartilharam planos, realizaram alguns sonhos? E então foram se distanciando, seja no calor das brigas ou no frio da indiferença e o desamor foi se instalando?

O que dói muito na separação são as lembranças do que houve de bom no relacionamento. Isso intensifica a sensação da perda. Admitir que esse casamento deu certo por algum tempo é acolher a dor dessas lembranças e perceber que um ciclo se fechou. E prosseguir na caminhada, se possível agradecendo a oportunidade de ter passado por essa experiência, incluindo o sofrimento que tem tanto a nos ensinar.

“Nada dá certo em minha vida” muitas vezes reflete expectativas tão grandiosas que a realidade fica sempre aquém do esperado. Quais são as falhas mais frequentes? Planejamento “pé no chão”, boas práticas de gestão, um plano de negócios bem arquitetado, quando se trata de abrir uma empresa ou de apresentar uma oferta de serviços. O alto índice de microempresas que abrem e fecham em torno de um ano de vida não expressa apenas dificuldades do cenário econômico, da burocracia infernal e da excessiva carga de impostos. Não adianta culpar a vida ou os outros. A melhor fonte de aprendizagem é a pergunta: “O que fiz, ou deixei de fazer, para que isso acontecesse”?

“Não dou certo para”… jogar futebol, aprender matemática, cozinhar, e outras tantas habilidades e competências não significa apenas admitir que não temos talento para tudo. Pode revelar nossa dificuldade de ter paciência com os inevitáveis erros e acertos do caminho da aprendizagem, de cultivar a persistência para vencer os obstáculos. Os projetos que “dão certo” incluem ideias ineficientes, tentativas frustradas, reformulações de propostas iniciais e muita determinação para não desistir de alcançar a meta.

Em muitos casos, o “nada dá certo” revela a autossabotagem, a incrível capacidade de “dar uma rasteira em nós mesmos”, muitas vezes sem sequer percebermos conscientemente o que estamos fazendo para minar o que dizemos que desejamos.

Ao olhar para trás e avaliar a própria trajetória, muitas pessoas sentem que o saldo é negativo. Até que ponto isso reflete uma avaliação pertinente, de ter deixado de aproveitar inúmeras oportunidades? Ou até onde isso revela a tendência de ver com lente de aumento o que não deu certo, desvalorizando as próprias competências e realizações?

O que podemos ganhar quando perdemos?

Gosto de contemplar (e fotografar) a beleza efêmera das flores.

Gosto de contemplar (e fotografar) a beleza efêmera das flores.

Muitos homens maduros lamentam a perda do desempenho sexual da juventude. Não conseguem vislumbrar os ganhos de desenvolver requintes de sensualidade e erotismo, descobrindo que a pele do corpo todo pode ser erótica. Os que param de lamentar a perda do vigor da ereção e se aventuram em desbravar novas trilhas podem descobrir a diferença entre fazer sexo e fazer amor, com ganhos significativos de prazer.

O mesmo se aplica às mulheres que lamentam a perda do corpo jovem, em uma sociedade impiedosa com as mulheres maduras. Muitas sentem que se tornam invisíveis ao olhar dos homens, que só se sentem atraídos pelas que ainda estão “com tudo no lugar”. Os preconceitos impõem perdas pesadas, principalmente quando os internalizamos sem percebê-los. Libertar- se da tirania do corpo ideal, traz o ganho de se desenvolver como pessoa atraente, explorando melhor o conhecimento de si mesma para receber e oferecer prazer.

A deficiência visual de uma amiga querida aumentou dramaticamente com a idade. Na última década de sua vida, não conseguia mais ler nem escrever. Mas conversava comigo sobre a profundidade crescente de sua visão interior, o aguçamento da audição que lhe permitia “viajar” ouvindo música, o prazer de sentir texturas, cheiros e sabores, o mergulho em si mesma nos longos períodos de quietude. Vivendo em uma sociedade cada vez mais dependente de imagens, era reconfortante refletir com ela sobre o que podemos ganhar quando perdemos a visão física. E pensar nos que estão com os olhos em excelente estado mas são absurdamente míopes com relação a si mesmos…

Conheço mulheres que se angustiam com a perda do poder de influenciar as escolhas de seus filhos adultos. “Quando ele era menino e até mesmo adolescente, ouvia meus argumentos. Agora… Simplesmente ignora minha opinião quando discordo das decisões dele!”. No entanto, com os filhos adultos, as mães podem se aposentar da função de cuidadoras e orientadoras. Eles são os responsáveis por seus atos e arcarão com as devidas consequências. As mulheres maduras podem ganhar tempo, autonomia e oportunidades para escolherem seus próprios caminhos nessa nova etapa de vida.

A perda de pessoas amadas, por morte ou separação, abre buracos no coração. A perda da saúde ou da memória traz a sensação de nos perdermos de nós mesmos. É muito difícil ver o que ganhamos em provas tão duras da vida. A espiritualidade e o sentido da transcendência podem oferecer outro nível de entendimento. Inclusive para transformar sofrimento em aprendizagem, compaixão e força de superação.