Arquivo mensal: junho 2015

Nutrindo a curiosidade

Quando meus filhos eram pequenos, eu mostrava folhas e flores com uma lupa para nutrir a curiosidade pela Natureza.

Quando meus filhos eram pequenos, eu mostrava folhas e flores com uma lupa para nutrir a curiosidade pela Natureza.

No encontro entre escritores e jovens leitores, um menino de dez anos comentou que seus amigos o acham muito curioso, porque faz muitas perguntas em sala de aula. Preocupado, perguntou: “O que a senhora acha disso”? Disse a ele que continuasse cultivando sua curiosidade, para aprender coisas novas a vida inteira.

Felizmente, minha curiosidade continua bem nutrida. Considero que esse é o melhor recurso para combater o tédio. Se sempre encontro muitas coisas e pessoas que me despertam interesse, mantenho o encantamento pelas descobertas.

A experiência como psicoterapeuta me fez perceber a importância da curiosidade nos relacionamentos. Para começar, o autoconhecimento. Nosso inconsciente é gigantesco: podemos sempre descobrir algo novo em nós mesmos. Acho graça quando ouço alguém afirmar: “Eu me conheço!”. Pura ilusão.

Após uma palestra, uma senhora me disse: “Estou casada há quarenta anos e não posso dizer que conheço meu marido”. Ela está certa. E a curiosidade para continuar descobrindo novos aspectos na pessoa com a qual convivemos há tantos anos pode nutrir a relação e renovar o encantamento. A menos que as surpresas sejam muito desagradáveis…

Um menino de nove anos, reclamando das tarefas escolares, me disse: “Eu já sei tudo, por que eu tenho que estudar essas coisas?” Conheço adultos que também criam essa ilusão de onisciência: cultivando a arrogância e o orgulho, sufocam a curiosidade.

Nos primeiros anos de vida, a curiosidade e o entusiasmo de descobrir o mundo ao seu redor trazem muita alegria para as criancinhas. Infelizmente, em algumas delas, a curiosidade vai desbotando pouco a pouco. Acabam afirmando que acham tudo chato, e não se interessam por nada. Alguns tornam-se adultos que restringem enormemente seu espaço vital: vão sempre aos mesmos lugares, comem a mesma coisa todos os dias, constroem rotinas rígidas e restritas. Temem novas experiências ou não sentem prazer em descortinar novos horizontes.

Com o gigantesco acesso à informação que está disponível atualmente, é inegável que o que ainda não conhecemos é uma área infinitamente maior do que o que já sabemos. O progressivo acúmulo de conhecimento é estimulado pela curiosidade. É uma riqueza que nunca se perde (a menos que nosso cérebro se deteriore) e que irá conosco a todos os lugares. A humildade e a intuição são grandes aliadas da curiosidade, que inspira cientistas a pesquisar novos temas, desbravadores a navegar por mares desconhecidos, escritores a penetrar mais a fundo nos infindáveis labirintos da mente humana.

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“Ela deixou de sorrir pra mim”!

Em um relacionamento amoroso, nem tudo são flores! Fotografei esse belo arranjo em Inhotim (MG).

Em um relacionamento amoroso, nem tudo são flores! Fotografei esse belo arranjo em Inhotim (MG).

É assim que Antônio, com tristeza, finaliza seu relato sobre as dificuldades que se acumulam em seu casamento de oito anos com Kelly.

“No início do namoro, estávamos encantados um com o outro. A gente se divertia, gostávamos de fazer caminhadas, ir ao cinema, sair com os amigos. O sexo era ótimo, ela gozava muito, e eu ficava feliz com isso. Nos dois primeiros anos de casados, tudo continuava tão bem que decidimos ter um filho. Depois que Gustavo nasceu, ela achou melhor parar de trabalhar para cuidar dele, e eu concordei. Mas, por conta disso, precisei aumentar minha carga de trabalho. E aí os problemas começaram: reclamações, cobranças, insatisfação crescente. Até que chegamos a esse ponto: nada do que eu faço está bom. Confesso que não sou santo: acabo perdendo a paciência. Também reclamo de muitas coisas que ela faz e o clima da relação fica péssimo. E aí o sexo, como ela gosta de dizer, “nem pensar”!

Na letra de Grito de alerta, Gonzaguinha sintetiza esse processo:

São tantas coisinhas miúdas, roendo, comendo, arrasando aos poucos o nosso ideal

São frases perdidas, num mundo de gritos e gestos, num jogo de culpas que faz tanto mal

De tantas escolhas possíveis, o que Antônio achou encantador em Kelly e vice-versa? Quais as possibilidades de redescobrir esse encantamento? Como cada um contribuiu para o problema e o que cada um poderia fazer para reconstruir uma boa relação?

O jogo de culpar o outro e imaginá-lo como causa da própria insatisfação nos impede de perceber como contribuímos para agravar as dificuldades e o que podemos oferecer de bom para melhorar a qualidade do relacionamento. É mais fácil dizer o que o outro precisa fazer do que refletir sobre o que precisamos mudar em nós mesmos. Quando agimos assim, deixamos de utilizar um poderoso instrumento de transformação: mudar nossa própria postura para modificar o circuito interativo. E, então, escolher o rumo a seguir.

Escolhas ousadas

Escolhas ousadas podem trazer nova luz, como esse belo amanhecer que fotografei na floresta amazônica.

Escolhas ousadas podem trazer nova luz, como esse belo amanhecer que fotografei na floresta amazônica.

Quais as escolhas mais ousadas ou não convencionais que fizemos em nossa vida? Como avaliamos riscos e benefícios dessas escolhas? O que aconteceu em decorrência dessas decisões que tomamos? Compartilhar experiências pessoais com as polaridades ousadia-cautela, inovação-conservadorismo gerou uma conversa muito interessante com um grupo de amigos.

No campo profissional, ousei estudar psicologia quando a profissão estava recém-regulamentada, para espanto de meus pais que queriam que eu fosse médica. Escolhi pesquisar a psicologia da gravidez como tema da tese de Mestrado quando ainda não se falava sobre isso no Brasil. E acabei de publicar Nas trilhas da vida, em parceria com Itiberê Zwarg, o primeiro livro-show do mercado editorial, que a maioria das pessoas está com dificuldade de entender o que é. Abrir novos caminhos inclui enfrentar obstáculos significativos, mas esses desafios me motivam a prosseguir, principalmente quando sinto a alegria de inspirar pessoas a caminhar por novas trilhas.

Um dos participantes falou da sua escolha ousada de morar em outro país por não suportar viver no clima de opressão da ditadura militar. “Sei que corri riscos, fui sem perspectivas concretas de conseguir trabalho, mas com a sensação de conquistar a liberdade ao atravessar esse portal da angústia e da insegurança” – comentou. Pensando no crescente fluxo migratório em função de guerras, perseguições e condições precárias de vida, muitas dessas escolhas ousadas são feitas no limite entre a esperança de sobreviver e a quase certeza da aniquilação.

Abordamos ainda a questão das escolhas ousadas no campo amoroso. Paixões avassaladoras que motivam a saída de relacionamentos que nos oferecem conforto material ou emocional mas deixaram de nos empolgar. Escolher viver com uma pessoa que nos encanta, apesar da reprovação da família e de amigos.

“De gravata e unha vermelha”, um documentário de Miriam Schnaiderman (Brasil, 2015), apresenta depoimentos de pessoas que ousaram mudar de corpo e de padrões de masculino/feminino para viverem de acordo com sua verdadeira essência, enfrentando preconceitos, ameaças e intimidações por se situarem fora dos padrões convencionais.

Escolhas ousadas são motivadas por diversos fatores: por rebeldia, para chocar pessoas da família ou grupos conservadores, por uma ideologia ou pela crença de que pode contribuir para mudar o mundo, pelo desejo de sair do “mais do mesmo” entediante e buscar novos rumos, pela esperança de que os riscos assumidos serão compensados por ganhos significativos.

As oscilações da autoestima

O olhar de apreciação ajuda a autoestima a florescer (fotografei essa flor em Santa Rita do Jacutinga, MG).

O olhar de apreciação ajuda a autoestima a florescer (fotografei essa flor em Santa Rita do Jacutinga, MG).

Narcisismo, arrogância e vaidade excessiva encobrem uma baixa autoestima. Para se sentir bem, essa pessoa precisa desqualificar outras, como se estivesse brincando de gangorra. Pessoas com boa autoestima sabem que há lugar para muitos se destacarem. Como acontece com as estrelas, para uma brilhar não precisa apagar as demais.

A construção da autoestima começa nos primeiros anos de vida, pela percepção do amor que é dedicado à criança e do olhar de apreciação pelo que ela é e faz. É claro que a criancinha é repreendida quando faz o que não pode, mas há uma grande diferença entre colocar os limites necessários a ações inadequadas e criticar a criança como pessoa. Dizer, por exemplo, “Antes de pegar outro brinquedo, vamos guardar esse” é bem diferente do que dizer “Você é muito bagunceira, deixa tudo espalhado pela sala”! Desqualificar sistematicamente a criança a deixa insegura, com dificuldade de perceber suas competências.

No decorrer da vida, a autoestima passa por oscilações, especialmente quando embarcamos em experiências novas, tais como o ingresso na escola, quando começamos a trabalhar, ou quando nos tornamos pais e mães. “Será que vou me desempenhar bem nessa nova função”? – é a pergunta que surge. Nesses primeiros passos, algumas coisas não acontecem como gostaríamos e sentimos insegurança. Para a autoestima não sofrer baixas significativas, é preciso olhar o erro como parte do caminho da aprendizagem e construir a autoconfiança gradualmente, na medida em que adquirimos experiência nas novas funções.

O modo pelo qual construímos nossas redes de relacionamentos influencia a autoestima, em todas as faixas etárias. Crianças e adolescentes que se sentem excluídos e rejeitados pela maioria dos colegas de escola podem ficar com a autoestima muito abalada. Em equipes de trabalho, gerentes que criticam acidamente os mínimos detalhes do desempenho dos seus colaboradores sem uma única palavra de apreciação pelo que está satisfatório criam tensão e mal-estar na equipe, prejudicando a autoestima dos mais sensíveis. Na relação amorosa, o olhar de apreciação da pessoa amada contribui para consolidar a autoestima e criar um clima de bem-estar no relacionamento; ao contrário, a depreciação constante pode gerar insegurança e baixa autoestima.

Os preconceitos que vigoram na sociedade também podem contribuir para dificultar a formação da boa autoestima ou sua manutenção. Em sociedades em que predominam o culto ao corpo e a valorização da juventude, o envelhecimento pode estimular a baixa autoestima (“Parece que sou invisível, ninguém olha para mim”; “Depois que fiquei velha não sirvo para mais nada”), especialmente nas pessoas que estão mais ligadas na “embalagem” do que no “conteúdo”. Mesmo quando não temos um corpo atraente pelos padrões convencionais, podemos ser pessoas atraentes.