Arquivo mensal: abril 2016

A arte em nossas vidas

Califórnia 029

Com elementos simples, como a areia e as pedras desse jardim japonês que fotografei em San Francisco (CA), é possível construir uma bela obra de arte.

“Podemos fazer da nossa vida uma obra de arte” – disse uma participante do grupo que conversou sobre esse tema.

“Mesmo em situações de precariedade e de extrema dificuldade é importante buscar a beleza” – agregou outra participante.

“Qualquer trabalho pode ser feito com arte. Na época em que ainda era comum engraxar sapatos, conheci um engraxate que conquistava os clientes com a qualidade do seu trabalho e com a arte da boa conversa”; “E eu me encantei com uma cozinheira que enfeita os pratos com flores comestíveis”; “Eu estava em um vilarejo do interior e meu tênis se abriu. O sapateiro que me indicaram fez um trabalho artesanal da costura tão perfeito, que continuo usando o tênis até hoje e já se passaram quatro anos”! – foram comentários de outros participantes.

A arte pode transformar vidas. A conversa com um grupo de educadores após uma palestra contou com alguns depoimentos emocionantes, como o dessa professora de uma turma de alfabetização de jovens e adultos. “A violência era a linguagem predominante. Eu entrava na sala assustada, sem me sentir capaz de lidar com jovens tão agressivos. Até que, um dia, decidi falar sobre poesia. Um deles, alto e musculoso, perguntou se poderia ler o que ele havia escrito. Era um poema muito expressivo sobre a crueldade cotidiana na comunidade em que vivia. Esse foi o ponto de partida para uma transformação significativa daquele grupo. A arte, a sensibilidade e a afetividade foram, pouco a pouco, predominando sobre a linguagem da violência”.

Conheço projetos de escolas em comunidades com alto índice de violência que, ao abrirem nos fins de semana com a proposta de oferecer atividades artísticas e esportivas, propiciaram trocas de saberes entre alunos, famílias e comunidades, transformando a rede de relacionamentos de modo significativo, incluindo mutirões para restaurar áreas degradadas, organizar hortas comunitárias, grafitar muros.

A psiquiatra Nise da Silveira ousou tratar esquizofrênicos com amor e arte, em contraposição aos métodos tradicionais da época, como a lobotomia e o eletrochoque. A musicoterapia abre caminhos para tratar de problemas emocionais. A arte trata e cura.

Para colocar arte em nossas vidas é preciso exercitar a curiosidade, a criatividade e a ousadia. O medo da crítica dos outros, de sermos vistos como pessoas ridículas e uma autocrítica impiedosa tolhem essa possibilidade.

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Papel de homem, de mulher ou de pessoas?

Homens e mulheres podem desempenhar funções a partir de acordos satisfatórios para todos, em harmonia como esses elementos da natureza (fotografei nos Lençóis Maranhenses)

DSCN0985Em um programa de entrevistas, o depoimento sofrido de um homem com cerca de 50 anos: “Estou envergonhado por estar desempregado há um ano, sendo sustentado por minha mulher e minha filha”. Em outro momento da entrevista, ele comunica, exultante: “Agora consegui um emprego”! Quase como se dissesse que, com isso, voltara a ser homem.

“Chefe de família”, “cabeça do casal”, “pátrio poder” são termos tradicionalmente vinculados ao homem. “É da natureza da mulher cuidar da casa e dos filhos” é uma afirmação com a qual muitas pessoas ainda concordam, apesar de, por exemplo, na realidade brasileira, mais de 30% das famílias sejam chefiadas por mulheres, que garantem o sustento parcial ou total de todos.

Os papéis distribuídos por gênero não correspondem mais à realidade do mundo atual, embora persistam na cabeça de muita gente. Homem provedor/mulher cuidadora cede lugar à realidade cada vez mais frequente de que as funções de prover e de cuidar pertencem a ambos. A importância do pai carinhoso, atento e participativo é cada vez mais vista como essencial para o desenvolvimento das crianças. E não se trata de fazer isso para “ajudar” a mulher e, sim, como legítima manifestação da parceria parental e do vínculo entre pais e filhos.

Na multiplicidade de composições familiares, quem exerce a função materna/paterna? Pode ser mais de uma pessoa, e não necessariamente o pai e/ou a mãe. O que importa é o compromisso de amar e de cuidar. Por isso, muitas escolas instituíram o Dia da Família, em vez de comemorar o Dia das Mães e o Dia dos Pais.

Meninos que desde cedo aprendem a cozinhar e participam das tarefas da casa são um contraponto ao velho hábito de mulheres convocarem apenas as filhas (quando muito) para repartir o trabalho, eternizando a imagem da mulher como servidora. É essencial solidificar o entendimento de que se a casa é de todos, todos precisam colaborar com as tarefas domésticas. Cuidar da casa é tarefa de pessoas!