Arquivo mensal: fevereiro 2015

Ceder não é se submeter!

Gosto de observar a água contornando os obstáculos das pedras, como nesse rio que fotografei na Serra da Bocaina (SP).

Gosto de observar a água contornando os obstáculos das pedras, como nesse rio que fotografei na Serra da Bocaina (SP).

Quem é “turrão” empaca em suas próprias posições para marcar território em jogos de poder que intensificam impasses, transformam muitos conflitos em problemas crônicos e impedem a construção de consensos.

Na raiz dessa atitude, uma enorme insegurança. “Não cedo nem um milímetro!”. Há também o medo de perder a própria identidade: “Se mudar de opinião deixarei de ser eu mesmo”. Isso configura rigidez, que também revela o orgulho de “não dar o braço a torcer”. Uma falsa demonstração de força.

Melhor do que ganhar uma discussão é ver o que podemos ganhar com ela. A disposição para ouvir os argumentos e os pontos de vista do outro e a habilidade de expressar com clareza nossa visão sobre a situação prepara o terreno para descobrir os pontos em comum mesmo quando há profundas divergências. Aprimorar a capacidade de escuta permite ampliar a visão de ambas as partes sobre a situação. Isso permite maior flexibilidade para rever nossa posição e construir uma saída satisfatória para resolver o impasse. Nesse sentido, ter flexibilidade não significa ceder no sentido de se submeter.

Por outro lado, há quem tente sistematicamente resolver conflitos cedendo, abrindo mão de seus desejos e necessidades para se submeter às exigências dos outros. São as pessoas “boazinhas”, que temem ser rejeitadas caso explicitem discordância. Com isso, acumulam secretamente ressentimento e mágoa. Crianças que abrem mão de seus pertences quando coleguinhas tirânicos assim o exigem, mulheres que se anulam para ceder aos caprichos de companheiros machistas, adolescentes que aceitam as regras impostas pelos “populares” para fazer parte do grupo são alguns exemplos de submissão.

A questão é ser flexível para avaliar o que é possível ceder para obter melhores resultados na construção de um consenso que resulte em uma solução satisfatória para ambas as partes.

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Escolhendo a vida plena

As cores do anoitecer no delta do Parnaíba (Piaui)

As cores do anoitecer no delta do Parnaíba (Piaui)

Viver a vida em plenitude ao encarar a morte! Fiquei emocionada ao ler o depoimento de Oliver Sacks, famoso neurologista, autor de muitos livros para o grande público. Ele escolheu viver cada dia que lhe resta da melhor forma possível, ao ser surpreendido por metástases no fígado, sem chance de cura.

Diante disso, conseguiu rever sua trajetória de modo mais amplo e profundo, priorizando o amor, a amizade e a gratidão por tudo que encontrou no caminho. Diz que isso lhe propicia uma intensa vitalidade, mesmo estando cara a cara com a morte. E o ajuda a se desligar do que não é essencial para se aprofundar no que verdadeiramente importa.

Avós, pais, quase todos os tios, alguns primos e amigos muito queridos não estão mais por aqui. Alguns morreram repentinamente – a vida é um sopro. Sentados em uma poltrona, dormindo na cama, durante uma conversa animada, em acidentes trágicos – subitamente fizeram a passagem para outro plano da existência. Acompanhei outros que se despediram lentamente dessa vida, na via-crucis de tratamentos, cirurgias e muito sofrimento.

Uma amiga querida dizia: “Quando o corpo padece, a alma cresce”. Eu via isso acontecendo, na profundidade crescente do seu olhar. Outra amiga, em lenta agonia, conversava comigo sobre a fragilidade da nossa embalagem carnal e a força do espírito mergulhando em nosso interior, fazendo as revisões necessárias para evoluirmos, aprofundando os vínculos significativos.

A perda da presença física das pessoas amadas fortalece meu sentimento por elas, que continuam a viver dentro de mim, nas lembranças das histórias compartilhadas, nas conversas que tecemos, na companhia que desfrutamos em trechos da estrada da vida. Não sabemos quando o último grão de areia vai escorrer para o outro lado da ampulheta do nosso tempo nessa vida. Essa incerteza me faz olhar cada dia como um presente, que procuro aproveitar da melhor forma possível.

Imagine!

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Antes do hidroavião pousar, fiquei imaginando a beleza que iria ver em seguida, na Grande Barreira de Corais, na Austrália.

– A criança pequena tem uma imaginação riquíssima, mas quando envelhecemos essa capacidade diminui – comentou uma participante de um grupo de conversa cujo tema era “Na tela da imaginação”.

Muitas ideias surgiram a partir desse comentário. “Atualmente, muitas crianças estão com a agenda cheia de atividades, sobra pouco tempo para brincadeiras que estimulam a imaginação”; “Os adultos criticam muito do que a criança imagina, ou dizem que ela vive no mundo da lua”; “Trabalho com oficinas de desenho animado e vejo que, quando oferecemos as ferramentas apropriadas, a imaginação surge em pessoas de todas as idades, mesmo naquelas que não foram muito estimuladas na infância”; “Quando leio um livro, gosto de imaginar os cenários e os personagens com o máximo de detalhes possível”; “Na imaginação patológica, a pessoa cria histórias terríveis, de perseguição ou de traição, que infernizam a vida de muita gente”.

A partir daí, muitas reflexões sobre o poder da imaginação na vida de todos nós. No devaneio, damos asas aos nossos desejos que podem (ou não) construir a base de projetos importantes. É essa a diferença entre o sonhador e o empreendedor. Lembro-me de um trabalho que realizei com adolescentes que frequentavam um projeto social. Um deles treinava intensamente, desejando ser jogador de futebol. Muitos apenas se imaginavam famosos, com rios de dinheiro e muitas mulheres, mas nada faziam para transformar esse sonho em realidade.

Li alguns trabalhos de neurocientistas mostrando a importância de “treinar com a mente” para melhor preparar o cérebro para a experiência real, e não somente o corpo. Músicos, atletas, palestrantes, atores podem imaginar em detalhes seu desempenho no evento que se aproxima, complementando as ações concretas para o treino e a preparação do material necessário.

Conheço também experiências de desenvolvimento de comunidades, em que um grupo de moradores é estimulado a imaginar as transformações necessárias para melhorar a qualidade de vida de todos. Essa é a base para projetar ações coletivas para construir a realidade imaginada.

“Pensar fora da caixa” significa imaginar soluções inovadoras para problemas antigos, ou para criar novos produtos e serviços. Cientistas e empreendedores precisam de muita imaginação para abrir novos horizontes. Em alguns momentos de nossa vida precisamos imaginar diferentes cenários para avaliar prós e contras e escolher o caminho a seguir: Vou aceitar essa proposta para trabalhar em outra cidade? Vamos ter mais um filho?

E que tal imaginar, como a música de John Lennon, um mundo em que as pessoas vivam em paz? O que podemos fazer, coletivamente, para construir essa realidade no mundo?

Raiva transbordante

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Cratera fumegante do vulcão Poas, que fotografei em San José, Costa Rica.

– O que fazer com um menino de sete anos que tenta bater na professora e joga objetos em cima dos colegas?

– A gente percebe que muitas crianças ficam com raiva quando são contrariadas, mas há algumas que estão sempre enraivecidas, não são explosões isoladas.

– E quando a criança nunca assume a responsabilidade por suas agressões? Diz que foi o colega quem o provocou, ele não fez nada…

A consultoria com um grupo de educadores gerou reflexões muito interessantes sobre relacionamentos na família e na escola. Como aprender a tomar conta da raiva antes que ela tome conta de nós? Muitos adultos ainda não completaram esse processo do autocontrole e são explosivos e até mesmo violentos, com seus parceiros amorosos e com seus próprios filhos. A violência é uma linguagem aprendida, na própria família e em muitas comunidades, e a criança a reproduz no ambiente escolar.

– Tia, por que você só conversa, e não bate na gente? – foi a pergunta de uma menina de sete anos para sua professora. Vinha de uma família em que a força do braço era mais utilizada do que a força da palavra, para colocar os limites necessários para a aprendizagem da autorregulação.

– No início do ano passado, um de meus alunos era muito agitado e agressivo com os colegas. Como trabalhamos com “combinados” na turma, muitos desses comportamentos eram inaceitáveis. Eu era firme porém afetiva com o menino, e os colegas também agiram desse modo. No final do ano, ele estava muito mais calmo – relatou uma educadora.

Trabalhar casos individuais coletivamente é um ótimo recurso dentro das salas de aula. Distinguir entre maneiras aceitáveis e inaceitáveis de expressar raiva e desagrado é algo que todos nós precisamos aprender para conviver respeitosamente com os outros. Perceber como contribuímos para o que acontece no relacionamento e assumir a responsabilidade pelos próprios atos é um aspecto básico da inteligência social. Há escolas que adotam “rodas de conversa” ou “círculos de justiça restaurativa” para que os alunos, desde cedo, desenvolvam recursos para gerenciar conflitos, de modo que as divergências não resultem em escalada de agressões recíprocas.